Operação Eagle Claw – Conclusão e Lições Aprendidas

by PFF on 22 de fevereiro de 2007 · 12 comments

in Operações e Análises

Capítulo anterior: O Chafúrdio
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Qual foi o motivo do chafúrdio da operação?

Vou estruturar os tópicos (relativos apenas à parte aeromóvel da operação) de acordo com o que foi exposto neste documento e acrescentar algumas coisas que vi em outras fontes, além de umas poucas opiniões particulares:

Sigilo nas comunicações:
O sigilo nas comunicações era vital para o sucesso da operação e foi levado a sério durante todo o tempo. Durante todos os ensaios, a comunicação entre os helicópteros era feita através de painéis e sinais de luzes. Isso, porém, prejudicou a coordenação entre as diversas aeronaves. Dessa maneira, o líder não ficou sabendo que o Seis tinha sido abandonado no deserto e nem que o Oito havia resgatado a tripulação. Isso influenciou também por ocasião do desmantelamento da formação no interior da tempestade de areia (ver tópico seguintes). Notem que durante a operação, as aeronaves subiram até seis mil pés (o Cinco foi até nove mil) e, em nenhum documento, consta que houve algum tipo de detecção por parte dos iranianos. Muito provavelmente, a capacidade iraniana foi superestimada.

Clima:
Não foi definido um cenário de cancelamento baseado no clima. Dessa maneira, cada comandante de helicóptero, mantendo o silêncio do rádio, tomou a sua própria decisão. O Um optou por retornar e pousar, acreditando que o outros o veriam e fariam o mesmo. Porém a formação já havia se espalhado e ele retornou sozinho. Ao se dar conta disso, retomou o rumo de Desert One. O Cinco, após mais de uma hora dentro do habbob, optou por retornar ao Nimitz. Foi, provavelmente, a decisão que cancelou a missão. Ironicamente, foi o único helicóptero que sobrou dos oito que iniciaram a operação.

Modelo dos helicópteros:
Quanto ao modelo dos helicópteros, a escolha foi acertada: o RH-53D era o único helicóptero americano que cumpria todos os requisitos e tinha condições de operar a partir do navio-aeródromo. Foi levantada a questão de ser usar os helicópteros HH-53 da Força Aérea, com sonda de reabastecimento. Estes decolariam de Masirah, o mesmo aeródromo onde se encontravam os Hércules, e fariam reabastecimentos em vôo. Se assim fosse, não seria necessário o estabelecimento da base em Desert One. Eu não tenho nem idéia da complexidade dessa operação, mas reabastecer em vôo oito helicópteros à noite, sobre território inimigo é, no mínimo, muito arriscado.

Número de helicópteros:
Não havia nenhuma limitação técnica ou logística para o emprego de uma quantidade maior helicópteros na operação. O Nimitz suportava uma quantidade maior de helicópteros, haviam tripulações disponíveis e também havia uma quantidade suficiente de combustível em Desert One para, pelo menos, dez helicópteros. Porém, simplesmente aumentar o número de aeronaves é uma solução bastante simplista: “Não deu certo com oito; se fossem dez teria dado certo”. Isso implicaria em mais treinamento, mais ensaios, uma menor segurança de informações, coordenação e controle mais difíceis, etc. No caso de um insucesso (como realmente ocorreu), seriam mais aeronaves e tripulações perdidas em território inimigo, com uma possibilidade remota de resgate. Agora, depois da m… feita, podemos dizer que se houvesse um helicóptero a mais em Desert One, a missão teria prosseguido. Mas isso não ficou muito claro no momento do planejamento e também não é uma garantia do sucesso da missão.

Treinar para a aeronave ou treinar para a missão?
Os pilotos empregados na missão talvez não fossem os mais adequados à ela. Palavras de vários pilotos, tanto dos Hércules, como dos Sea Stallion:

“This mission required a lot of things we had never done before.”

“Flying using night-vision goggles was almost unheard of. There was no capability, or for that matter, a need, to refuel helicopters at remote, inaccessible landing zones. All these skills and procedures would be tested and honed for this mission.”

“These capabilities are routine now for special operators, but at the time we were right there on the edge of the envelope.”

O que aconteceu foi o mais lógico e simples e o erro foi percebido quando já era tarde: o helicóptero é o RH-53D, então os pilotos serão os do RH-53D. Apesar de apenas um modelo de helicóptero entre todos os disponíveis serem adequados à missão, os pilotos não tinham a experiência necessária para operar num ambiente de operações especiais, missões de resgate, ou mesmo em fazer um voo tático em formação sobre terra (lembrem que eram pilotos caça-minas da Marinha).

Talvez a solução mais adequada tivesse sido usar pilotos da Força Aérea. Na época, a Força Aérea tinha 114 pilotos habilitados nos modelos H-53 (CH-53 e HH-53), 86 deles com experiência mais ou menos recentes em operações especiais ou missões de resgate.

O Projeto Jungle Jim, que se iniciou em 1961, tinha a finalidade de melhorar a capacidade de combate das tripulações da USAF em operações especiais e de baixa-intensidade (que se mostrou muito útil no Vietnã). Neste projeto, desenvolvido no 4400th Combat Crew Training Squadron, foi visto logo no início que é incrivelmente mais simples treinar um piloto para uma nova aeronave do que para um novo tipo de missão. Devemos lembrar que isso é uma fase antes do ensaio da missão propriamente dita. Os pilotos da Marinha passaram por instruções e programas de treinamento para as habilitações técnicas relativas à missão e também para as ações táticas necessárias. Muito provavelmente, uma habilitação dos pilotos da Força Aérea no RH-53D (com pouquíssimas diferenças para os H-53 nos quais eles já voavam) teria trazido excelentes resultados, pois não haveria a necessidade de capacitá-los taticamente para a operação.

O resultado imediato disso foi a criação, logo após essa operação, da Task Force 160. Essa força-tarefa se transformou no 160º SOAR, uma unidade de aviação do Exército específica para operações especiais; com treinamento, pessoal, aeronaves especializadas e, principalmente, em condições de planejar o emprego dentro de condições mais realistas.

Conclusão
A missão como um todo tinha um grau de risco bastante elevado, mas a alternativa era pior ainda: deixar os reféns nas mãos dos terroristas até não se sabe quando. A missão foi tentada e, depois de dezenas de erros de planejamento – alguns por negligência, outros por pura falta de experiência – e de execução, foi cancelada. Oito militares faleceram, houve uma grande perda de material (um C-130 e sete RH-53D) e os reféns permaneceram seqüestrados por mais nove meses.

A questão mais discutida em todos os artigos é a decisão do helicóptero Cinco em retornar. Ele manteve o silêncio no rádio. Depois da operação, disse que se soubesse das demais condicionantes e que a missão foi cancelada, não por culpa, mas por uma decisão que ele tomou, ele teria prosseguido. E você, o que faria?

Alguns pontos positivos que vale a pena ressaltar:

- Definição, desde o início, dos cenários de cancelamento (“se acontecer isso, a missão não prossegue”) e realmente se ater a eles, evitando decisões de cabeça quente ou “nas coxas”. Infelizmente, devido há falta de experiência por parte da aviação naval, não foi previsto uma conduta baseada no clima.

- Estudo criterioso dos tipo de aeronave que deveria ser utilizado.

Para saber mais:
- Tropas de Elite: excelente site brasileiro, com descrições detalhadas de dezenas de operações
- Documento sem título: Em pdf. Tem 87 páginas de uma análise pós-ação desta operação. Serviu de modelo para a elaboração da nossa conclusão.
- Desert One: estudo de caso em uma revista da USAF
- Operation Eagle Claw: Artigo no helis.com
- Operation Eagle Claw, 1980: A Case Study In Crisis Management and Military Planning: Excelente estudo de caso no Journal of Singapore Armed Forces. Mostra as tomadas de decisão desde os níveis mais elevados de comanda da operação
- The Desert One Debacle: Artigo escrito por Mark Bowden (o mesmo autor do Black Hawk Down), com dezenas de fotos e entrevistas em vídeo com os participantes da operação. Vale a pena ver também o comentário deixado pelo Ten Cel Mark Schibler, da USAF, sobre os helicópteros H-53.
- Inside Delta Force: The Story of America’s Elite Counterterrorist Unit: livro de Eric Hanley, um dos pioneiros dessa tropa de elite, que esteve presente na missão


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Oficial do Exército Brasileiro, piloto e editor do site Voo Tático

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Em "Chariots of Damned" (Maj. Mike McKinney e Mike Rian), um capítulo é dedicado à Operação Eagle Claw e nele achei algumas informações interessantes: 1) Os pilotos escolhidos inicialmente eram da US Navy, mas apresentaram muitas dificuldades nos treinamentos e foram substituídos por pilotos da USMC. Estes apresentaram um rendimento bastante superior, embora tenham salientado estarem acostumados a operações predominantemente diurnas e infiltrações de curta distância, o que remete novamente à pertinência de empregar os pilotos de HH-53 da USAF. 2) Além da falta de visibilidade provocada pelo habbob, o choque das pás com a areia gerava faíscas que ofuscavam ainda mais os pilotos, haja vista que utilizavam NVG passivos. (Se não me engano vi fotos/vídeos desse efeito com aeronaves brasileiras aqui no site; em menor escala, claro) 3) O autor omite a ascensão das duas aeronaves para 5000 e 9000 ft, além de atribuir o choque do RH-53D número três com o C-130 a uma rajada de vento, sem mencionar o balizador, o que me parece um tanto improvável. 4) Além do problema com os filtros anti-areia, o autor também menciona a utilização de lubrificantes inadequados, o que causou sobreaquecimento do sistema de arrefecimento dos motores e queda de rendimento/desempenho. Finalizando, quanto à opção de serem empregados os HH-53 da USAF, a operação de resgate de prisioneiros de guerra em Son Tay em 1970 empregara 05 HH-53C e 01 HH-3E, que foram reabastecidos em voo durante à missão.

O efeito que você citou é bem nítido com o OVN. Acho que não tenho fotos por aqui, apenas vídeos, mas não lembro onde também. A olho nu, dá para ver também; é o efeito Kopp-Etchels (quem sugeriu esse nome foi o Michael Yon ( http://www.michaelyon-online.com/ ). Dá para ver ele aqui: http://vootatico.com.br/archives/2839 A operação de Son Tay é uma das que estão em primeiro na minha interminável lista que tenho para escrever ainda. Um dos comandantes dessa operação participou da Eagle Claw (estava infiltrado em Teerã para guiar as equipes após o desembarque). Eu não conheço esse livro que você citou. É bom? Estou lendo o Guts to Try, sobre a Eagle Claw (da autoria do Coronel Kyle), mas está difícil terminar.

Como o subtítulo ("Helicopter Special Operations from Vietnam to Kosovo") diz, o livro trata de operações especiais. Cada capítulo aborda uma operação diferente, exceto o dedicado ao 160º SOAR, que descreve desde a formação da Task Force 158, passando pela invasão de Granada, do Panamá vai até algumas ações da unidade na Desert Storm. Assim, a obra não tem como escapar de ser um pouco generalista, mas para os novatos como eu acredito que dê uma boa noção tanto das ações em si quanto da sua evolução, ao apresentar como as falhas apontadas na operação anterior foram (ou tentaram ser) solucionadas.

Complementando, achei em outra fonte que os FLIR também foram retirados/descartados para a missão devido ao seu peso.

Eu nem sabia que os H-53 tinham FLIR naquela época... Aliás, eu nem sabia que já existia o FLIR.

Pois é, no capítulo seguinte encontrei a informação de que a Task Force 158 e 159 adotaram o FLIR, "uma tecnologia ainda experimental". Talvez tenha havido um equívoco. (The Night Stalkers - Michael J. Durant e Steve Hartov)

Piffer, Parabéns belo artigo, sem dúvidas a texto do Mark Bowden é um dos mais fiéis e detalhados sobre essa operação. Você fez ótimos comentários e observações. Com relação aos RH-53D utilizados na operação: Os RH-53 utilizados na operação originalmente tinham os filtros e uma série de aparatos que foram todos removidos para diminuir o peso da aeronave e melhorar sua autonomia. Se você pesquisar no google ou qualquer outro buscador de imagens na internet por RH-53 irá ver uma arenave de um cor azul escura, quase cinza. Estes eram os RH-53D originais utilizados para a operação Eagle Claw. Abraços, Cleder

Acho que você tem razão, Cleder. Eles quase sempre aparecem com os filtros nas fotos da Marinha. Valeu pela correção. Seu site é muito bacana!

Com certeza, os filtros anti-areia das aeronaves roubam uma parcela da potência. Mas acredito que eles não tenham sido retirados para a missão. Os RH-53D eram aeronaves caça-minas, que voavam o tempo todo sobre a água; portanto não precisavam dos filtros. Acredito sim que tenha sido uma falha do planejamento (ou que tenha sido levado em consideração, mas não como determinante) a ausência destes acessórios.

Uma vez li uma revista Veja da época do resgate e no artigo constava que os filtros de ar das turbinas foram retirados para dar aos helicópteros mais 5% de velocidade. Talvez também tenha sido um dos fatores que determinaram o fracasso da missão. André

Putz!! Mto bom esse artigo! Tá de parabéns o blog!

Em "Chariots of Damned" (Maj. Mike McKinney e Mike Rian), um capítulo é dedicado à Operação Eagle Claw e nele achei algumas informações interessantes:
1) Os pilotos escolhidos inicialmente eram da US Navy, mas apresentaram muitas dificuldades nos treinamentos e foram substituídos por pilotos da USMC. Estes apresentaram um rendimento bastante superior, embora tenham salientado estarem acostumados a operações predominantemente diurnas e infiltrações de curta distância, o que remete novamente à pertinência de empregar os pilotos de HH-53 da USAF.
2) Além da falta de visibilidade provocada pelo habbob, o choque das pás com a areia gerava faíscas que ofuscavam ainda mais os pilotos, haja vista que utilizavam NVG passivos. (Se não me engano vi fotos/vídeos desse efeito com aeronaves brasileiras aqui no site; em menor escala, claro)
3) O autor omite a ascensão das duas aeronaves para 5000 e 9000 ft, além de atribuir o choque do RH-53D número três com o C-130 a uma rajada de vento, sem mencionar o balizador, o que me parece um tanto improvável.
4) Além do problema com os filtros anti-areia, o autor também menciona a utilização de lubrificantes inadequados, o que causou sobreaquecimento do sistema de arrefecimento dos motores e queda de rendimento/desempenho.

Finalizando, quanto à opção de serem empregados os HH-53 da USAF, a operação de resgate de prisioneiros de guerra em Son Tay em 1970 empregara 05 HH-53C e 01 HH-3E, que foram reabastecidos em voo durante à missão.

O efeito que você citou é bem nítido com o OVN. Acho que não tenho fotos por aqui, apenas vídeos, mas não lembro onde também. A olho nu, dá para ver também; é o efeito Kopp-Etchels (quem sugeriu esse nome foi o Michael Yon ( http://www.michaelyon-online.com/ ). Dá para ver ele aqui: http://vootatico.com.br/archives/2839

A operação de Son Tay é uma das que estão em primeiro na minha interminável lista que tenho para escrever ainda. Um dos comandantes dessa operação participou da Eagle Claw (estava infiltrado em Teerã para guiar as equipes após o desembarque).

Eu não conheço esse livro que você citou. É bom? Estou lendo o Guts to Try, sobre a Eagle Claw (da autoria do Coronel Kyle), mas está difícil terminar.

Como o subtítulo ("Helicopter Special Operations from Vietnam to Kosovo") diz, o livro trata de operações especiais.
Cada capítulo aborda uma operação diferente, exceto o dedicado ao 160º SOAR, que descreve desde a formação da Task Force 158, passando pela invasão de Granada, do Panamá vai até algumas ações da unidade na Desert Storm. Assim, a obra não tem como escapar de ser um pouco generalista, mas para os novatos como eu acredito que dê uma boa noção tanto das ações em si quanto da sua evolução, ao apresentar como as falhas apontadas na operação anterior foram (ou tentaram ser) solucionadas.

Complementando, achei em outra fonte que os FLIR também foram retirados/descartados para a missão devido ao seu peso.

Eu nem sabia que os H-53 tinham FLIR naquela época... Aliás, eu nem sabia que já existia o FLIR.

Pois é, no capítulo seguinte encontrei a informação de que a Task Force 158 e 159 adotaram o FLIR, "uma tecnologia ainda experimental". Talvez tenha havido um equívoco. (The Night Stalkers - Michael J. Durant e Steve Hartov)

Piffer,

Parabéns belo artigo, sem dúvidas a texto do Mark Bowden é um dos mais fiéis e detalhados sobre essa operação. Você fez ótimos comentários e observações.

Com relação aos RH-53D utilizados na operação:

Os RH-53 utilizados na operação originalmente tinham os filtros e uma série de aparatos que foram todos removidos para diminuir o peso da aeronave e melhorar sua autonomia.

Se você pesquisar no google ou qualquer outro buscador de imagens na internet por RH-53 irá ver uma arenave de um cor azul escura, quase cinza. Estes eram os RH-53D originais utilizados para a operação Eagle Claw.

Abraços,

Cleder

Acho que você tem razão, Cleder.

Eles quase sempre aparecem com os filtros nas fotos da Marinha. Valeu pela correção.

Seu site é muito bacana!

Com certeza, os filtros anti-areia das aeronaves roubam uma parcela da potência. Mas acredito que eles não tenham sido retirados para a missão. Os RH-53D eram aeronaves caça-minas, que voavam o tempo todo sobre a água; portanto não precisavam dos filtros. Acredito sim que tenha sido uma falha do planejamento (ou que tenha sido levado em consideração, mas não como determinante) a ausência destes acessórios.

Uma vez li uma revista Veja da época do resgate e no artigo constava que os filtros de ar das turbinas foram retirados para dar aos helicópteros mais 5% de velocidade.
Talvez também tenha sido um dos fatores que determinaram o fracasso da missão.
André

Putz!! Mto bom esse artigo! Tá de parabéns o blog!

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