Aplicações de Guerra Eletrônica na Especialização Operacional dos Pilotos de Asas Rotativas

by PFF on 29 de agosto de 2009 · 11 comments

in Aviação Militar

Atualmente não se pode negar a complexidade do campo de batalha. O piloto que será inserido nesse meio precisa ter conhecimento sobre vários aspectos como o armamento de seu vetor, as ameaças inimigas, e também o ambiente eletromagnético em que irá se envolver.

O Maj MAGRINELLI, autor deste artigo, é oficial aviador da FAB e instrutor no 1º/11º GAv. Cursou o Curso de Piloto de Combate no CIAvEx em 2004, junto comigo.

Na Doutrina Básica da FAB a guerra é definida como sendo um fenômeno social que resulta da aplicação violenta do poder, para forçar o inimigo a executar a vontade nacional e acrescenta que essa violência pode obstruir a racionalidade tanto de amigos como de inimigos [1].

Pensadores como Clausewitz [2] não acreditam que as normas como o Direito Internacional dos Conflitos Armados (DICA) venham a reduzir a violência da guerra para níveis mais racionais, pelo contrário, julgam que acreditar nisso é um grande erro.

Percebe-se então que a guerra se caracteriza, sobretudo, pelo uso da violência. Isso demonstra que a capacitação dos recursos humanos que atuarão nessa situação precisa ser encarada com a devida seriedade, pois se está formando alguém que será exposto a todos os riscos e incertezas de uma atividade violenta e sem compaixão, quando um erro pode ter consequências fatais. Daí se subentende que a capacitação dos guerreiros do ar deve ser “o processo pelo qual a pessoa é preparada para desempenhar de maneira excelente as tarefas específicas do cargo que ocupa“ [3].

Para realizar essa qualificação deve-se levar em consideração o que Pascal Ide afirma: “De fato, todos nascemos com uma inteligência, mas ninguém nasce com um manual de instruções para utilizá-la. Cabe à educação fornecê-lo” [4]. Um dos momentos oportunos para fornecer essa educação aos pilotos, em virtude da vantagem de estarem todos eles reunidos em um mesmo lugar, pode ser o Curso de Especialização Operacional em Asas Rotativas (CEOAR).

Esse curso tem a possibilidade de emanar esforços para prover a capacitação do oficial estagiário para utilizar o helicóptero em uma ambiente de combate, caracterizado pela violência e pela incerteza, de forma ótima, a fim de prover sua sobrevivência e o cumprimento de sua missão. Para isso deve-se fornecer recursos para que o piloto utilize sua inteligência para planejar sua missão e atuar em um ambiente de guerra, e um ponto que não pode ser esquecido é justamente a guerra eletrônica.

A guerra eletrônica e a Especialização Operacional

O emprego da guerra eletrônica em combate começa muito antes da decolagem. Primeiramente necessita-se conhecer o ambiente eletromagnético onde se vai operar, depois se analisam as ameaças que se pode encontrar para realizar a programação das Medidas de Ataque Eletrônico (MAE) em seguida prossegue-se para o voo, situação em que não há tempo para fazer uma análise profunda da ameaça que surge nos sistemas da aeronave, precisa-se já possuir uma programação adequada dos sistemas e agir mecanicamente. Após a conclusão da missão, precisa-se realimentar os bancos de dados com as informações coletadas pelos sensores da aeronave a fim de aumentar a veracidade do ambiente eletromagnético que é apresentado no briefing para as equipagens.

No ciclo de aplicação da guerra eletrônica mostrado acima cada aviação possui suas peculiaridades, as faixas do espectro eletro magnético que empregam com maior intensidade, bem como aquelas que proporcionam um maior grau de ameaça. No caso da aviação de asas rotativas isso pode ser verificado no diagrama abaixo.

tabela-magrinelli

Por meio da interpretação desse diagrama verifica-se a grande necessidade do piloto possuir conhecimentos de guerra eletrônica, mesmo que rudimentares, para que seja aumentada sua probabilidade de sobrevivência. Uma vez que esses conhecimentos implicam na sobrevivência, quanto mais cedo o militar tomar ciência da teoria maior será o tempo que o mesmo possuirá para massificar a mesma colocá-la em prática, aumentando suas chances em uma situação de combate.

No intuito de fornecer conhecimentos específicos sobre as táticas, as ameaças e o emprego do espectro eletromagnético pela aviação de asas rotativas, o Curso de Emprego de Helicópteros em Combate (CEHC) é ministrado durante o CEOAR. Esse curso não pretende substituir o Curso Operacional de Guerra Eletrônica ministrado pelo CEAGAR no GITE, mas sim apresentar as peculiaridades da utilização do espectro eletromagnético a favor ou em oposição à aviação de asas rotativa. O curso apresenta, assim, um enfoque bastante operacional e específico, mas ainda superficial.

Para tanto, o curso se inicia fornecendo os conceitos básicos de guerra eletrônica, passando pelo histórico da mesma. Nesse momento o piloto compreende conceitos como Medidas de Ataque Eletrônico (MAE), Medidas de Proteção Eletrônica (MPE), Medidas de Apoio à Guerra Eletrônica (MAGE) e como eles se relacionam em uma situação de combate.

Em seguida procura-se aprofundar esses conhecimentos com instruções sobre propagação de ondas eletromagnéticas, introdução ao radar e tipos de varredura. Contudo, a faixa do espectro eletromagnético utilizada pelos radares não oferece uma ameaça freqüente aos helicópteros em virtude da capacidade dos mesmos de navegar entre obstáculos, o que lhes oferece grande furtividade, entretanto essa técnica reduz muito o alcance da aeronave, além de aumentar o risco de colisão com obstáculos. Dessa forma o estudo desse tema se justifica quando o mesmo é relacionado com os diagramas de cobertura radar e com as técnicas de navegação da aviação: navegação à baixa altura (NBA), navegação de contorno (NACO) e navegação entre obstáculos (NOE).

Pode-se perguntar sobre as antiaéreas guiadas por radar, mas as mesmas não recebem grande enfoque porque são normalmente planejadas para defender alvos de grande valor contra aeronaves de alto desempenho e o custo para montar esse sistema de defesa contra helicópteros armados com mísseis seria muito dispendioso. Isso ocorre em virtude da necessidade de uma análise mais específica do terreno e, provavelmente, uma maior quantidade de sensores para cobrir as áreas cegas. Isso leva a aviação de asas rotativas a voltar a atenção para as antiaéreas que utilizam a faixa do infravermelho, o que é comprovado pelo contrato realizado pela Força Aérea Holandesa para a modernização dos equipamentos de Guerra Eletrônica de seus AH-64 Apache, pois o mesmo não previu a aquisição de RWR, apenas MAWS e lançadores de contramedidas [5].

Atualmente existem inúmeros armamentos do tipo MANPADS (Man Portable Air Defense System) que utilizam geralmente a faixa do infravermelho, são de grande precisão, baixo custo e podem ser carregados por apenas um militar. Esse é o armamento que oferece a maior ameaça aos helicópteros, pois são completamente passivos até o momento do seu lançamento.

Logo, o CEHC aborda o funcionamento do MAWS, dos lançadores de flare e de outras MAE como as contramedidas direcionais infravermelhas (DIRCM) e suas aplicações. Para uma boa compreensão desse assunto são apresentados estudos sobre guiagem de armamentos, táticas de proteção contra ameaças infravermelhas e assinatura infravermelha de helicópteros, esses dois últimos de pouco conhecimento dentro da aviação, o que permite que os estagiários tornem-se disseminadores de conhecimento.

Também é importante compreender as táticas do inimigo, por isso os estagiários recebem instruções sobre artilharia antiaérea sob o enfoque do piloto, ou seja, o que o mesmo deve saber para planejar uma missão em área onde essa ameaça seja possível.

Mas o infravermelho não oferece apenas ameaças à aviação, pois os helicópteros também podem empregar mísseis guiados por essa energia, bem como empregam com freqüência imageadores de infravermelho como os FLIR (Forward Looking Infrared), por isso o curso contempla as aplicações desse tipo de equipamento em operações noturnas com helicópteros.

Quando se passa da faixa do infravermelho para a faixa do espectro visual estudam-se várias possibilidades de aplicação tanto em armamentos como em operações noturnas.

Os armamentos a que se dispensa uma maior atenção são os mísseis com guiagem command link e beam-riding por laser, os mais comumente usados por vetores de asas rotativas e consagrados na história pela Operação Normandy, a primeira missão desencadeada na Guerra do Golfo Pérsico, quando helicópteros foram responsáveis pela entrada furtiva no território iraquiano e a destruição de dois radares de vigilância, criando um corredor para a entrada de várias aeronaves americanas para bombardear alvos estratégicos [6].

Levando em consideração a realidade da guerra moderna, já é de conhecimento que o emprego de operações noturnas unido a o vôo a baixa altura é a única forma de um helicóptero sobreviver, conforme cita o Major Read em seu artigo “Under the cover of darkness: is helicopter night training keeping pace with technology?” [7]. O CEHC enfoca esse aspecto pela apresentação do equipamento de visão noturna do tipo NVG (Night Vision Goggles), equipamento criado para o emprego de helicópteros a alturas extremamente baixas na década de 70 [8]. Um ponto que não se pode esquecer do emprego de helicópteros em operações noturnas é que se evita que o inimigo utilize a faixa da luz visível do espectro eletromagnético para detectar os vetores, isso reduz bastante a efetividade das ameaças que são representadas pelas tropas inimigas, que oferecem grande perigo aos helicópteros em função da baixa velocidade dos mesmos.

Já concluindo o curso em questão, os alunos recebem instruções sobre a tecnologia stealth e sua aplicação em helicópteros, destacando os pontos positivos e negativos da mesma e, por fim, uma palestra sobre mísseis nacionais.

Formando novos guerreiros

Pode-se perceber que os conhecimentos fornecidos durante todo esse curso não são aprofundados, fornecem apenas noções básicas relacionadas com as aplicações em um nível operacional do helicóptero. Esses conhecimentos são de extrema importância para que qualquer piloto aprenda a raciocinar com o ambiente de combate e utilize sua inteligência para planejar e executar sua missão, contrapondo-se, ou evitando, as ameaças eletromagnéticas de seu campo de batalha da melhor maneira possível, aumentando as probabilidades de regressar com vida.

Atualmente não se pode conceber uma guerra em que não sejam empregados os meios de detecção eletrônica nem armamentos que utilizem de energia eletromagnética para guiamento, isso nos faz perceber que os conhecimentos ministrados no CEHC visam exatamente ao cumprimento do lema da I FAE: “Especializar para Combater”, pois como disse Giulio Douhet: “Os países que forem apanhados despreparados para a guerra perceberão, quando esta eclodir, que não só será demasiado tarde para se prepararem, mas que nem sequer poderão captar o seu sentido.” [9].

[1] BRASIL. Comando da Aeronáutica. Estado-Maior da Aeronáutica. Doutrina básica da Força Aérea Brasileira (DCA 1-1). Brasília, 2005.
[8] BRASIL. Comando da Aeronáutica. Segunda Força Aérea. Manual de vôo com óculos de visão noturna (NVG – Night Vision Googles)(MCA 55-40). Rio de Janeiro, 2006.
[2] CLAUSEWITZ, Carl von. Clausewitz: trechos de sua obra. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1988.
[3] DAGOSTIN, Roberto. Mapas cognitivos como suporte para programas de capacitação: um estudo de caso com base na análise ergonômica das atividades. 2003. Disponível em: . Acesso em: 4 out. 2007.
[6] DAY, Dwayne A. Helicopters at war. Disponível em: . Acesso em: 10 set. 2007.
[9] DOUHET, Giulio. O Domínio do ar. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988.
[5] Electronic Warfare: Quick Reaction Contract for the Royal Netherlands Air Force. Disponível em:
[7] READ, R. K. Under the cover of darkness: is helicopter night training keeping pace with technology? 1992. Disponível em: . Acesso em: 14 set. 2007.

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Marcelo tudo bom cara sinto muito pela perca de seu pai pessoa incrível um abraço e força coragem pra superar as dificuldades. em nome de todos nos volnei magrinelli e familia.

Obrigado Macedo. Lembrei de uma coisa, o Cmt Cominato me auxiliou bastante na confecção desse artigo, sobretudo me deu a idéia do gráfico do espectro e das ameaças.
Por isso cmt, o crédito pelo trabalho também é seu.
Quanto ao seu comentário Macedo, concordo que as mudanças, sobretudo de mentalidade, são lentas, mas cabe a nós persistir e estudar, é nossa única saída.
Boa Sorte na AVEX.
Aviação!!!!!!!!!
Magrinelli (CPC 2004)

Temos que nos falar qualquer dia desses caro parente,eu eder,volnei e joão magrinelli te desejamos muito sucesso

Fico feliz que a FAB esteja "preocupada " em desenvolver essa doutrina sobre o Emprego de Guerra Eletrõnica na Aviação de asas rotativas.
A AvEx ainda necessita desenvolver muito mais não só na doutrina como principalmente Cultura ( ou mentalidade) , que é o início para o desenvolvimento de novas doutrinas( é apenas meu pensamento).

A História diz que as grandes mudanças doutrinárias se fizeram após grandes conflitos ( é óbvio!!). Mas será que o Brasil precisará de um conflito "real" para um maior investimento e desenvolvimento dos seus equipamentos e doutrinas militares??

Parabéns Magrinelli pelo excelente trabalho!

Concordo com você Piffer, acho que esse é o principal dilema da aviação de combate com helicópteros. Já li alguma coisa a respeito em um artigo que defendia o vôo acima de 10000ft nas missões com helicóptero baseado na menor exposição ao raio de ação das antiaéreas. Esse artigo é em inglês mas devo ter um resumo em algum lugar. Vou procurar e tento te enviar.
Muito obrigado por todos os comentários, é bom saber que os dilemas que eu tenho também são compartilhados por outros guerreiros que empregam po mesmo vetor.

Caro Magrinelli,
reli seu artigo e renovei a satisfação que tive ao trabalhar ao seu lado. Parabéns por compartilhar conhecimento com qualidade e altíssimo nível técnico. Bons voos!

Estou plenamente de acordo com a analise do Capitão Marcelo Magrinelli.

Acrescento alguns dados.

Hoje na América do Sul, que apesar de ser um cenário relativamente "atrasado" tecnologicamente em termos de meios AA, temos uma razoável disseminação de mísseis portáteis, salvo Paraguai e Uruguai, Guiana e Suriname todos os demais paises da região possuem declaradamente mísseis na classe do Stinger, Igla, Mistral, RBS-70 e MHN-5.

Esta é a principal ameaça a aeronaves de asa rotativa em missões de combate e pela natureza deste tipo de armamento, ações de inteligência que possam alertar sobre sua localização precisa são praticamente inócuas.

Voar em território defendido, sem uma suíte de contramedidas a este tipo de arma é no mínimo uma ingenuidade estratégica.

Temos negligenciado a anos esta variável em muitas aeronaves táticas brasileiras, sejam elas de asas rotativas ou fixas.

Quanto tempo que você não aparece por aqui, Koslova!

Eu acredito que, diferentemente dos aviões, os helicópteros conseguem se valer mais das técnicas, táticas e procedimentos que que da tecnologia em si. O voo dos helicópteros pode ser feito quase que o tempo todo fora do envelope de lançamento dos mísseis. Como eu falei para o Magrinelli, quem não é visto não é abatido por armas que necessitam de visada direta.

Num conflito regular e com a anti-aérea formada quase que exclusivamente por manpadas, o trabalho de inteligência não é tão inútil, pois existirão pontos nítidos que devem ser defendidos e os mísseis (ou grande parte deles) estarão por lá.

Por outro lado, se a situação descambar para um conflito irregular, a tecnologia terá um papel de maior destaque.

Sempre o dilema irá permanecer: voar baixo e se expor às armas leves, menos precisas mas espalhadas por todo canto, ou voar mais alto e se expor às armas anti-aéreas, em menor número porém muito mais letais.

Valeu pela publicação Piffer, agradeço se vc me enviar os comentários e críticas ao trabalho.
Parabéns pelo site.

Eu gostei principalmente da tabela que você fez, relacionando o nível de ameaças e de emprego. Há algum tempo eu havia lido (e escrito aqui) que a principal defesa do helicóptero é não ser visto. A sua tabela vem a confirmar que o espectro da luz visível é a que oferece o risco mais alto (tanto na ameaça como no emprego).

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