Eu havia planejado escrever este artigo já há alguns meses, quando o tópico sobre ele pareceu no Fórum DB. A Batalha de Takur Ghar foi a ocasião em que mais militares americanos foram mortos em combate desde 1992, na Operação Gothic Serpent (do filme “Black Hawk Down”).
Para este artigo, usei duas fontes principais: a primeira é o Executive Summary of the Battle of Takur Ghar, o relatório oficial do Departamento de Defesa americano sobre o ocorrido. Como não poderia deixar de ser, é mais formal e aborda os aspectos técnicos e táticos da operação, porém em linguajar comum (provavelmente foi algum tipo de relatório para o Congresso ou alguma outra autoridade não-militar). A segunda são dois artigos publicados no The Washington Post. Foi escrito baseado em entrevistas com os participantes e relata dos dramas pessoais dos militares envolvidos. Tenho a impressão de que este artigo não está mais online no The Washington Post, mas foi copiado para o fórum do Special Operations Community Network. Aqui no Brasil, ele pode ser lido no Fórum DB, numa excelente tradução de mais de vinte páginas feita pelo Clermont.
Operação Anaconda
A Operação Anaconda foi desencadeada em março de 2002 pelos EUA e seus aliados no Afeganistão para eliminar elementos da Al-Qaeda no vale Shah-e-Kot, próximo à fronteira com o Paquistão. Foi o primeiro grande envolvimento de tropas americanas no Afeganistão e também o primeiro que empregou tropas convencionais.
A operação consistia numa manobra típica de “martelo-e-bigorna”. Forças americanas e afegãs saindo de Gardez empurrariam os elementos da Al-Qaeda na direção das posições de bloqueio estabelecidas pelas 10ª Divisão de Montanha e 101ª Divisão Aerotransportada nas montanhas a leste do vale.

- Infiltração das equipes de operações especiais.
- Eliminação de pequenas resistências da Al-Qaeda próximas às vilas da região.
- O assalto aeromóvel conduzido pela 101ª Divisão para ocupar suas posições de bloqueio (bigorna)
- A varredura realizada pelas forças aliadas e afegãs (martelo).
- mobiliar RIPI para monitorar as atividades da Al-Qaeda no vale Shah-e-Kot;
- balizar as ZPH para o assalto aeromóvel que seria realizado contra o Objetivo REMINGTON (v. mapa);
- atuar como GAA durante a execução da operação.
Após o início das operações e uma resistência bem mais forte que a esperada por parte do inimigo, algumas RIPI e postos de observação tiveram que ser reposicionados. A elevação de Takur Ghar, com seus três mil metros de altitude e um excelente campo de observação sobre todo o vale, se apresentava como o ponto ideal. Mas o inimigo também havia percebido isso.
No mapa abaixo podemos ver a leste várias elevações onde as equipes de forças especiais se infiltraram. A mais alta é Takur Ghar. A oeste uma serra (“Whale’s Back”) e no vale entre ambas um vale onde se localizava o Objetivo Remington.
Razor 03 e Razor 04
Por volta das três horas da manhã de 02 de março de 2002, o Razor 3 (um MH-47E do 160º SOAR) se aproxima para desembarcar uma equipe formada por SEALs da Marinha e Controladores de Combate do Força Aérea no alto de Takur Ghar. Ambos os pilotos percebem sinais de atividade humana recente no local (trilhas na neve, peles de bode usadas como agasalho).
Antes que pudessem decidir se prosseguiriam ou não na missão, a aeronave foi atingida por um RPG e rajadas de metralhadora. Algumas linhas de óleo lubrificante e fluido hidráulico se romperam, despejando líquido no piso de aeronave e deixando-o escorregadio.
Durante a arremetida, o ABH1 (não sei que graduação é essa) Neil Roberts escorregou pela rampa do Chinook e caiu de uma altura de três a cinco metros sobre a neve. Um tripulante da aeronave também escorregou, mas ficou pendurado pelo seu “rabo de macaco”.
O Razor 3, ainda sob fogo e bastante danificado, realizou um pouso de emergência no vale, alguns quilômetros ao norte de Takur Ghar. Razor 4, após desembarcar sua equipe no ponto previsto (uma outra elevação ao norte de Takur Ghar), resgatou a tripulação e a equipe embarcada no Razor 3 e retornaram a Gardez.
Não se sabe o que aconteceu imediatamente após a queda de Roberts. As evidências indicam que ele não morreu na queda. Ele provavelmente acionou o seu TLE portátil e trocou tiros com os inimigos no topo da elevação. Um AC-130 que voou sobre Takur Ghar algum tempo depois identificou pelo FLIR o que provavelmente seria Roberts cercado por seis outros indivíduos.
Imediatamente, um plano de resgate começou a ser formulado. Não havia outro local de pouso próximo ao topo de Takur Ghar. Desembarcar a força de resgate na base da montanha também não era uma opção viável; implicava numa escalada de duas ou três horas extremamente desgastante para se chegar próximo ao local. A única chance real era o desembarque próximo ao local onde Razor 3 foi atingido.
Perto das cinco horas da manhã, Razor 4 se aproximou do alto de elevação. Apesar do intenso fogo inimigo, a aeronave desembarcou a equipe de seis SEALs em segurança e conseguiu retornar a Gardez, apesar dos danos.
A troca de tiros foi intensa. Os SEALs atingiram diversos inimigos porém, depois de algum tempo, se viram com dois feridos graves e recebendo fogo de duas direções diferentes. Com apoio de fogo do AC-130 Grim 32, os SEALs conseguiram recuar para uma parte um pouco mais baixa do pico, ainda sob fogos.
Enquanto isso, a Quick Reaction Force (QRF), que ficava em prontidão de 15 minutos justamente para situações como essa, se preparava para partir em Gardez. Era formada por um Pelotão(-) Ranger (vinte homens), um TACT, um CCT e um PJ, embarcados em dois helicópteros MH-47E3: Razor 01 e Razor 02. Notem que o Chinook tem uma capacidade nominal de transportar mais de trinta homens. Porém, devido à altitude e clima da região, estavam sendo empregados duas aeronaves para se transportar 23 homens.
Razor 01 e Razor 02
A QRF decolou sem saber realmente o que estava acontecendo em Takur Ghar, devido às comunicações bastante limitadas.
Enquanto a QRF decolava, os SEALs se retiravam de Takur Ghar e pediam assistência imediata. O pedido foi aprovado e a QRF foi direcionada para Takur Ghar. O pouso foi autorizado num local diferente do local onde a batalha estava ocorrendo. Novamente devido às condições ruins de comunicação, a ordem de pousar num local diferente não foi recebida pelas aeronaves. Em conseqüência, os Rangers não ficaram sabendo que os SEALs estavam se retirando de Takur Ghar e as aeronaves seguiram diretamente para o local onde Razor 03 e Razor 04 haviam recebido o fogo inimigo.
Na aproximação final, um RPG explodiu na lateral do Razor 01, enquanto sua fuselagem era perfurada por tiros vindos de três direções diferentes. Os pilotos tentaram arremeter, mas a aeronave havia sofrido muitos danos e acabou realizando um pouso brusco no pico coberto de neve. Os pilotos ficaram bastante feridos e o atirador da janela da direita foi morto por uma rajada de fuzil. Todos os ocupantes da aeronave foram atirados contra o piso da aeronave e se viram sob um intenso fogo de armas leves, vindo de várias direções.
O PJ e o sargento paramédico dos Rangers começaram a socorrer os feridos no interior da aeronave. O comandante do pelotão começou a planejar uma manobra para assaltar o bunker no topo da elevação mas logo percebeu que necessitaria de um efetivo maior, devido ao número de feridos. Enquanto isso, o CCT solicitou o apoio aéreo. Em poucos minutos, bombas de 500 libras eram lançadas a cinqüenta metros do Chinook abatido.
Por volta de 07h00, pouco mais de uma hora após o pouso, os Rangers conseguiram estabelecer um perímetro defensivo e montar um posto de socorro próximo à rampa traseira do helicóptero.
Após a queda do Razor 01, o Razor 02 se deslocou para uma área segura e, após receber algumas instruções, desembarcou a segunda metade do pelotão num local de pouso 800 metros a leste e 2000 pés abaixo do topo da elevação. Dali, eles conseguiram contato rádio com os SEALs, que agora estavam a 1000 metros do topo.
A escalada demandou duas horas de esforço, numa encosta entre 45° e 70° de inclinação, coberta por quase um metro de neve e sob intenso fogo de morteiros.
Às 10h30, eles atingiram o topo da elevação e se uniram ao restante do pelotão.
Neste momento, os americanos começaram a receber tiros de um sniper posicionado em uma elevação a 400 metros dali e foram obrigados a mudar o local de seu posto de socorro, carregando todos os feridos para um local seguro, próximo a algumas rochas.
Uma exfiltração diurna foi descartada pelo risco elevado de se perder outra aeronave e a batalha prosseguiu durante todo o dia, até que, ao final da tarde, a posição norte-americana estava consolidada, recebendo apenas fogos esporádicos e pouco precisos de morteiros e snipers.
A noite caiu e, às 20h15, três aeronaves do 160º SOAR exfiltraram os Rangers no topo de Takur Ghar. Um quarto Chinook embarcou os SEALs um pouco mais abaixo. Os feridos foram levados para a 274ª Equipe Cirúrgica Avançada, em Bagram, e os casos mais graves foram embarcados para hospitais na Alemanha.
Sete americanos haviam morrido e quatro ficaram gravemente feridos. A Operação Anaconda prosseguiu por 19 dias.
Não é o objetivo deste blog, mas convido-os a ler o artigo do Washington Post (os links estão lá no início deste texto). Ele trata, principalmente em sua parte final, das decisões que foram tomadas em diversos níveis, durante a operação.
Várias discussões surgiram: valeu a pena enviar a QRF, mesmo com poucas informações? Quem disser que sim, conforme realmente ocorreu, irá salvar a equipe dos SEALs, que estava retraindo sob fogo e só conseguiu se desengajar com a chegada do Razor 01; quem disser que não, irá salvar o Razor 01 e os Rangers, mas sacrificará os SEALs. Era necessário aguardar até a noite para a exfiltração? Quem disser que sim, fará uma exfiltração mais segura, como realmente aconteceu; quem optar pela exfiltração diurna, exporá as aeronaves ao risco, mas provavelmente salvaria o PJ Jason Cunningham que foi ferido pela manhã e faleceu pouco antes do pôr-do-sol. Enfim, como disse o próprio tenente Self, comandante da QRF, “não há uma resposta certa”.
E você, o que faria?
A montanha de Takur Ghar ficou conhecida no Exército americano como Roberts Ridge, que é justamente o título do livro que foi escrito sobre o episódio.
Leia também:
- Imagens de Takur Ghar
- Documentário sobre a batalha de Takur Ghar
- Quarenta e cinco segundos numa Zona de Desembarque quente


Post fantastico! terriveis decisoes para fazer. Nao gostaria de estar na pele de quem teve que fazer as escolhas
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