Em agosto do ano passado, cinco dias de conflito engalfinharam forças russas e georgianas nas obscuras Ossétia do Sul e Abecásia. Eu já havia escrito alguma coisa sobre este conflito aqui, mas a edição mais recente (e final) da revista Helitac trouxe um artigo bastante rico sobre as operações aeromóveis que se desenrolaram neste conflito. O texto que se segue é embasado neste artigo de Alexander Mladenov, além de algumas outras fontes na internet.
Um fato que merece destaque é que ambos os países tinham forças com equipamentos semelhantes ou pelo menos de gerações e níveis tecnológicos semelhantes. Ainda que pese a grande superioridade numérica da Rússia, que a conduziu à vitória militar em poucos dias, o que se viu foi um conflito entre forças armadas regulares organizadas, cada vez mais raro nestes tempos de contra-insurgência e contra-terrorismo.
Mi-24 da Geórgia, destruído em Senaki (Foto: Fórum DB)
Segundo fontes da Geórgia, houve quatro surtidas de Mi-24 e um deles foi perdido em um acidente. Um Mi-24 e um Mi-14 (ambas as células já não voáveis) também foram destruídas por tropas aerotransportadas russas na Base Aérea de Senaki. Os russos alegam que destruíram um Mi-24 e um Mi-8. A confusão entre os dois modelos é bem compreensível no fragor da batalha.
No front norte (Ossétia do Sul), desde o início da ofensiva, a tropa do 58º Exército Russo (de seis a dez mil homens) foi apoiada por duas unidades de helicópteros, o 487º Regimento Independente de Helicópteros e o 344º Centro de Treinamento. São duas unidades de elite da Força Aérea Russa. O primeiro combateu na Chechênia, sendo a primeira unidade russa a operar com NVG e a segunda é a unidade que mobilia o Centro de Treinamento de Emprego em Combate de Torzhok, onde os militares da FAB estão realizando os cursos do Mi-35M. Eu não sei dizer se é a mesma unidade que combate e que ministra os cursos. Se for, é uma arranjo bastante incomum.
Foram empenhados aproximadamente doze helicópteros Mi-24P/V/PN e outros doze Mi-8MTV/MTKO. As aeronaves, baseadas em sua maioria na Chechênia, foram reunidas no aeródromo de Beslan (ao lado) e após isso desdobradas em bases avançadas. Todas as tripulações, sem exceção, tinham experiência em combate de contra-insurgência na Chechênia.
Os russos, neste caso, passaram por um problema inverso ao que os Exércitos ocidentais vêm enfrentando: desde a década de 1980, os russos estão combatendo insurgências no Afeganistão e nas ex-repúblicas soviéticas; são especialistas nisso. No Ossétia, porém, foi travado um combate regular com um inimigo que dispunha de uma moderna e bem adestrada artilharia anti-aérea.
Logo no início do conflito, os Mi-8 foram utilizados para infiltrar o Batalhão de Forças de Operações Especiais Восток (Vostok) a partir da Chechênia para a capital da Ossétia do Sul, Tskhinvali.
Soldado do Batalhão Vostok nos arredores de Tskhinvali (Foto: RIA/Novosti)
Os Mi-8 foram também o principal vetor anti-carro russo. Operando à noite e armados com míssies 9M120 Ataka, atingiram uma média de três blindados destruídos em cada surtida nos arredores de Tskhinvali. Dois terços das perdas em blindados da Geórgia foram devidos aos ataques dos Mi-8 armados.
Os Mi-24, que seriam a escolha “normal” para este papel, voaram quase que exclusivamente em missões de apoio aéreo aproximado às tropas que avançavam. Mesmo os Mi-24PN, compatibilizados para operação com NVG, voaram sempre durante o dia, provavelmente porque as operações terrestres estavam ocorrendo apenas durante o dia também. A configuração mais comum destas aeronaves trazia dois tanques de translado subalares e dois lançadores de 20 foguetes 80mm, além do canhão ou metralhadora orgânica.
Mi-24 sobre a Ossétia do Sul (Foto: DIMITAR DILKOFF/AFP/Getty Images)
Um emprego bastante peculiar dos helicópteros foi como plataforma de GE. Usando equipamentos de MAE, os Mi-8 conseguiram neutralizar os radares das baterias 9K37M1 (Buk-M1), permitindo o ataque das aeronaves Tu-22M russas. Os Mi-8 de GE não estavam disponíveis em número suficiente em todo o TO e na ocasião em que não estiveram presentes, um Tu-22 foi abatido – certamente uma perda de valor considerável.
No front oeste, a Abecásia é outro território que não reconhece o governo da Geórgia. Os russos desembarcaram 9000 homens – fuzileiros navais e tropas aerotransportadas – no litoral da Abecásia. Um assalto aeromóvel no vale do rio Kodori (ponto A no mapa ao lado), conduzido por umas poucas aeronaves Mi-8T, conseguiu infiltrar tropas da Abecásia na retaguarda das tropas de Geórgia, que abandonaram suas posições deixando para trás todo o equipamento pesado.
Além das missões já citadas, os helicópteros também realizaram as demais atividades que lhes são comuns, como ligação de comando, C2, evacuação aeromédica e evacuação de feridos, suprimento aeromóvel etc.
Conclusões e lições aprendidas:
O General Shamanov, Diretor de Treinamento em Combate das Forças Armadas Russas, avaliou que a dosagem ideal de aeronaves para esta operação seriam dois regimentos – aproximadamente 30 Mi-8 e 30 Mi-24. A falta de helicópteros atrasou principalmente o avanço das tropas através das montanhas ao norte de Tskhinvali.
O que salta aos olhos é o emprego dos Mi-8 como vetores de armas. Podermos especular algumas razões. A mais óbvia é a falta de aeronaves de ataque no TO. Dessa maneira, as aeronaves dedicadas foram vocacionadas para as missões onde realmente fariam a diferença – estando mais expostas ao risco – e as missões menos exigentes ficaram com as aeronaves adaptadas. Vale lembrar que, embora o Mi-8 não seja uma aeronave de ataque, é uma configuração bastante comum na Rússia dotá-la de armamentos axiais.
Outro aspecto que vale a pena ressaltar é que o baixo adestramento das tripulações russas foi uma das principais causas dos acidentes e da pouca eficácia das operações aeromóveis tanto na primeira como na segunda campanhas da Chechênia. Ao que parece, os russos andaram fazendo a lição de casa, mesmo apesar das grandes restrições orçamentárias que vêm sofrendo.
Várias aeronaves de asa fixa foram abatidas pela artilharia antiaérea georgiana e pelo fogo amigo. Contudo, nenhum helicóptero foi perdido, seja abatido, seja por fratricídio, seja por acidente. A artilharia antiaérea foi evitada principalmente pelo voo a alturas extremamente baixas (provavelmente usando técnicas de voo de contorno e voo desenfiado). Isso vai ao encontro do que eu já disse em algumas ocasiões que a segurança do helicóptero reside principalmente nas TTP do que na blindagem ou tecnologia da aeronave (aqui e aqui).
Podemos ainda atestar o adestramento destas unidades de aviação pois uma mesma unidade, usando os mesmos Mi-24, configurou-os de uma maneira diferente e operou também de maneira diferente do que vinha sendo visto na Chechênia e ainda assim obteve excelentes resultados.
Atualizado em 09 Dez 09: Outro fato notório foi o assalto aeromóvel conduzido no Vale do Kodori. Esta operação foi realizada unicamente com as forças da Abecásia – uns quatro ou cinco helicópteros e trezentos reservistas. Um planejamento cuidadoso, o emprego judicioso do terreno e a oportunidade da execução permitiram a estas forças bastante limitadas cercar as forças georgianas bem mais poderosas que, pressionadas pelas forças russas vindas do litoral, se renderam praticamente sem combater: houve uma baixa do lado da Abecásia e duas do lado da Geórgia.
Certamente o helicópteros fizeram a balança pender mais ainda para o lado dos russos. Mas uma pergunta que ficou no ar: o que teria acontecido se a Geórgia tivesse empregado seus helicópteros? Teria sido uma excelente oportunidade de avaliar a capacidade dos helicópteros em multiplicar o poder de combate das forças terrestres contra um inimigo mais forte.
Leia também:
- Operações aeromóveis no conflito entre a Rússia e a Geórgia, I
- Exercício Peace-Mission 2009 (China-Rússia)
- O Centro de Treinamento de Torzhok recebe três Ka-52


afff não gostô tonem ai
tô zuando até que élegal"!!!!!!!!!!!!!!!:)
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