O emprego dos MV-22 Osprey em missões de combate (atualizado)

by PFF on 16 de agosto de 2010 · 12 comments

in Operações e Análises

Publicado originalmente em 2 de março de 2010:

As unidades do USMC dotadas das aeronaves MV-22 Osprey já estiveram no Iraque e mais recentemente foram desdobrados no Afeganistão. Mesmo assim, o emprego destes tilt-rotors em combate ainda é cercado de ceticismo e acabam sendo considerados “ônibus voadores” de luxo.

Dois aspectos principais acabam tornando esse emprego mais crítico: as limitações dos armamentos de auto-defesa e a incerteza quanto à sua resistência a danos de combate – e consequente incapacidade de realizar um pouso de emergência.

As asas, os motores e os rotores basculantes limitam bastante o setor de tiro de metralhadoras instaladas em janelas, como ocorre nos helicópteros. Existe apenas uma metralhadora montada na rampa traseira. A solução encontrada foi a instalação de uma Universal Turret System (UTS) com uma Minigun[1. A Minigun é chamada de M-134 no US Army e de GAU-2B nas demais forças armadas americanas] na barriga da aeronave, conforme a figura abaixo.

MV-22 Osprey

Sistemas de armas do MV-22 (Figura: BAE Systems)

O problema dessa montagem é que provavelmente ela tem que ser recolhida por ocasião do pouso. E mesmo que não precise, não vai ter condições de atirar até o último segundo, como se vê nos helicópteros.

O segundo problema é mais crítico. O sistema de rotores basculantes é bastante complexo (como se os helicópteros já não fossem complexos o suficiente) e não se sabe como um dano num sistema crítico irá realmente afetar a capacidade da aeronave em continuar voando.

O MV-22 também não realiza auto-rotação como um helicóptero. Numa hipótese voo sem ambos os motores, teria que planar como se avião fosse. O problema é que ele não pousa como avião. O diâmetro dos rotores o obriga a realizar o pouso sempre como se fosse um helicóptero.

Por esses motivos, os Osprey acabaram ficando de fora das missões mais “hot” nas recentes campanhas americanas.

Há alguns dias foi reportado que um Osprey ficou sob fogo de RPG do Talibã, sem entretanto ser atingido. É a única ocasião divulgada que ele esteve sob fogo.

Mas é claro que uma aeronave como essa tem suas vantagens e a chave do sucesso é aproveitar os seus pontos fortes. O MV-22 tem uma velocidade de cruzeiro no mínimo duas vezes maior que um helicóptero convencional.

O Talibã conhece os padrões operacionais das forças da OTAN e, de maneira geral, desenvolveu TTP para conseguir escapar de posições de cerco e operações tipo martelo e bigorna. Porém, na semana passada, os Osprey foram empregados para posicionar fuzileiros navais na região de Marja com uma velocidade bem superior a dos helicópteros, surpreendendo o inimigo.

Como alguém falou num comentário em um dos artigos de referência, a chave é a confiabilidade. Quanto mais ele voar, mais se conhecerá suas vantagens e deficiências e como ele poderá ser melhor empregado com segurança.

Referências:

O Frag 01/4630, de 16 de agosto de 2010: o Osprey novamente desarmado

A edição mais recente da Defence Helicopter trouxe uma reportagem sobre o emprego dos MV-22 no Afeganistão. Como não poderia deixar de ser, as tripulações dessa aeronave falaram muito bem dela.

Alguns tópicos interessantes: apesar do MV-22 estar substituindo gradualmente os CH-46 (e não os CH-53, como vira-e-mexe aparece na internet), o USMC considera ele muito mais um avião que pousa em áreas restritas do que um helicóptero que voa mais rápido que os outros. Os pilotos voam mais de 70% do tempo na configuração de avião e o treinamento anterior ao MV-22 é preenchido muito mais por aeronaves de asa fixa do que de “aviões de rosca”.

O outro, e principal, tópico a ser ressaltado é que os poucos (eram apenas cinco) sistemas de armas Guardian System que citei acima já foram desinstalados das aeronaves. Considerou-se que o peso de 363 kg do sistema era excessivo para o ambiente em que estavam operando (isso lembra o episódio da retirada dos radares dos Apaches). Além disso, foi reportado que diversos operadores ficavam enjoados tendo que se concentrar na tela enquanto a aeronave realizava as manobras. Esse segundo fator, acredito eu, é apenas uma questão de treinamento/adaptação. Os pilotos de reconhecimento e ataque dos Apaches e Super Cobras tem que se concentrar em seus MFD da mesma maneira e isso não inviabiliza a missão.

Em todo caso, o USMC não aprovou o sistema e os Ospreys permanecem apenas com a metralhadora na rampa traseira.


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Oficial do Exército Brasileiro, piloto e editor do site Voo Tático

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O Osprey é o resultado da união de um avião todo limitado com um péssimo helicóptero... Um ícone da engenharia aeronáutica, um desastre como arma...

Eu estava sendo um pouco mais "polido" ao abordar o assunto, mas o Sr e o RodrigoMF tem razão. Eu também não visualizo o emprego dele em combate.

Desculpe a falta de polidez... O Osprey tem seus méritos, creio que para uso atrás das linhas ou com baixa expectativa de ameaça. Apesar de vulnerável, ele potencializa o emprego do poder aéreo, na medida em que não precisa de pistas de pouso, que podem ter sido destruídas/interditadas. Forte abraço

Complementando, crei que o grande dilema do projeto seja a relação custo / benefício: muito caro, crítico e vulnerável diante das alternativas já existentes. Abs.

Mesmo levando isso em consideração, o que ele faz, um helicóptero também pode fazer com menos limitações e vulnerabilidades. Acredito que o único trunfo dele continua sendo a velocidade.

Pois é, a velocidade é um dos "pilares" do emprego do poder aéreo, ao lado do alcance, conforme nos ensinou Giulio Douhet, nos tempos da I Guerra Mundial... Compartilho informações sobre projeto da Piasecki a respeito de helicóptero de alta velocidade, no link abaixo. Aos rotores...! http://www.airspacemag.com/multimedia/videos/Souped-Up-Seahawk.html

Não consigo ver o Osprey sendo utilizado como heli de assalto. Além das armas a transição dele para vôo vertical é lenta e queria ver se ele voa monomotor. O Osprey e o AB609 para mim serão ótimas aeronaves de SAR e para demais tarefas não ligadas a linha de frente. Para Off-Shore em plataformas distantes como as que serão utilizadas no Pré-Sal, ele seria perfeito.

Rodrigo, se eu não me engano ele voa monomotor sim. Eu lembro de ter lido no site AirVectors que cada motor pode acionar sozinho os 2 rotores em caso de emergência.

Eu ainda não tinha me dado conta desse problema das armas de defesa durante o desembarque. Um solução possível seria instalar armamento nas naceles dos motores, mas provavelmente isso traria mais problemas. Se brincar, o Osprey vai acabar sendo a última aeronave de combate de seu tipo, e suas vantagens acabarão sendo obtidas com fans na cauda de helicópteros convencionais, como estão fazendo com um protótipo do Blackhawk.

Há algumas semanas, foi publicada uma entrevista do comandante do 160º SOAR - da qual não consegui encontrar o link na internet. Um dos aspectos que ele ressaltou foi justamente a necessidade de aeronaves mais velozes e o exemplo citado foi essa adaptação do Black Hawk e não o Osprey, que já está operando sem convencer a maioria dos usuários.

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