pelo Ten Cel S. I. Pariy1, traduzido do inglês por Marcus Piffer
Em 1985, tendo sofrido uma série de grandes reveses nas províncias de Kabul e Kunar, o inimigo nitidamente aumentou a intensidade de seus ataques. Atacou bases militares, postos avançados e atirou sobre comboios civis. Havia uma situação particularmente ruim ao longo da fronteira sul do país, na província de Kandahar. Uma das maiores bases da guerrilha estava localizada 150 quilômetros ao sul de Kandahar. Esta base treinava forças de guerilha e fornecia armas e munição para o combate no interior do Afeganistão. A base era localizada no cânion de Islam-Dara e era formada por diversos acampamentos, um hospital, uma grande padaria e paióis de armas e munição.
O comandante da divisão ordenou ao meu comandante do regimento aerotransportado para realizar um assalto aeromóvel de um batalhão no acesso norte do cânion e outro batalhão no acesso sul do cânion2. Estes batalhões bloqueariam o inimigo no interior do cânion e então participariam da sua destruição quando os demais regimentos da divisão chegassem para conquistar e destruir a base. Meu batalhão, o 1º Batalhão, deveria inicialmente embarcar uma companhia aerotransportada mais um pelotão de reconhecimento em oito helicópteros Mi-8 e, escoltados por quatro helicópteros de ataque Mi-24, conduzir um assalto para manter a Zona de Desembarque (Z Dbq) 1. Ao término de 18 de novembro, deveríamos conquistar os pontos dominantes (elevações 2300 e 2100) e o acesso. Em 19 de novembro, apoiaríamos a infiltração do restante do batalhão e do regimento. Bloquearíamos, então, o cânion pelo norte e evitaríamos a retirada do inimigo nesta direção.
Durante a preparação para este combate, os comandantes de subunidade dedicaram uma atenção particular ao estudo da área do objetivo através de fotografias aéreas, coordenando suas ações e dirigindo o treinamento das comunicações por rádio. A tropa foi submetida a um programa de treinamento de sete dias que foi finalizado com um exercício de companhia ressaltando ações muito semelhantes ao que seria realizado na operação: conquistar e manter terrenos elevados, bloquear uma área e apoiar o pouso de helicópteros. Em 18 de novembro, a missão da primeira vaga e do corpo principal do batalhão estava planejada em detalhes. O comandante do batalhão comandaria a primeira vaga.
Às 1500h de 18 de novembro, nossa primeira vaga (destacamento avançado) decolou. Durante a aproximação para a Z Dbq, o inimigo abateu quatro de nossos helicópteros. Sete militares foram feridos. Os helicópteros sobreviventes não foram capazes de pousar e retornaram à base. A
missão da primeira vaga teria que ser cumprida com um número muito menor de sobreviventes no solo. Os sobreviventes do assalto aeromóvel se viram sob fogo inimigo. O Tenente Sênior V. V. Serdyukov comandava o pelotão de reconhecimento que estava em melhor situação. Ele conduziu seus homens para as regiões mais altas para conquistar a elevação 2300 e dar cobertura à retirada dos sobreviventes. Atingiu o inimigo no flanco, destruiu duas posições inimigas e conquitou as elevações 2300 e 2100. O pelotão de reconhecimento proveu o fogo de cobertura que permitiu aos sobreviventes se retirarem até a passagem do cânion e se abrigarem em posições mais altas.

Na manhã de 19 de novembro, ataques aéreos e fogos de artilharia choveram sobre as posições inimigas que o reconhecimento havia identificado. Então, o restante do batalhão, seguido pelo regimento, pousaram na Z Dbq 2. A primeira vaga realizou a cobertura dessa infiltração com sucesso. Às 0800h do dia 19, a 2ª Comapanhia Aerotransportada conquistou as alturas que bloqueavam o acesso norte ao cânion. Às 0400h do dia 20 de novembro, a 3ª Companhia Aerotransportada conquistou as alturas dominantes na encosta oeste do cânion. Dois pelotões da 1ª Companhia Aerotransportada expulsaram os inimigos sobreviventes da elevação 2400 e, às 0630 de 19 de novembro3, a ocuparam. Dessa forma, às 0400h de 20 de novembro, o acesso norte do cânion estava completamente fechado. Conseqüentemente, o inimigo tinha que tentar se retirar pelo sudoeste. Neste momento, outras subunidades da divisão tinham conquistado as demais elevações e fechado o cânion. Elas completaram a destruição do inimigo.
Nosso batalhão não teve baixas consideráveis. Tivemos sete feridos, todos da primeira vaga do primeiro dia. Tivemos três homens feridos em um acidente com um BTR no segundo dia. Quatro helicópteros Mi-8 foram abatidos. O inimigo perdeu aproximadamente 35 homens mortos em combate.
Comentários da Academia de Frunze:
O inimigo concentrou o grosso do seu poder de combate na porção sul do cânion. Nós o enganamos a localização da força principal de combate soviética, que o conduziu à derrota. Deve ser dedicada uma atenção à defesa aéreas bem organizada que o inimigo desdobrou. Suas posições estavam interconectadas e bem protegidas. Provaram estar a salvo de ataques aéreos e fogos de artilharia. Por não termos nenhum dado da inteligência sobre a localização das armas anti-aéreas do inimigo, nossos helicópteros de ataque atiraram indiscriminadamente sobre os topos das elevações, mas as metralhadoras que abateram as aeronaves de transporte estavam localizadas na base das montanhas.
Depois de examinar nossos erros, podemos tirar as seguintes experiências positivas desta operação: o sucesso de toda a operação dependeu, em grande parte, das ações corajosas e decisivas da primeira vaga. Cada grupo, pousando em uma única ou em várias Z Dbq, deve estar preparada para agir independentemente, se as vagas seguintes para a mesma Z Dbq não forem possíveis. O modo como os helicópteros serão empregados irá variar de acordo com a altitude das montanhas. Um Mi-8MT pode carregar de seis a oito soldados com todo seu equipamento a 2000 metros de altitude, mas apenas quatro ou cinco de 3000 a 4000 metros de altitude.
Comentários dos editores norte-americanos:
A guerra de guerrilha é a guerra dos comandantes de pelotão e comandantes de companhia. A iniciativa nos escalões mais baixos é essencial para a sobrevivência e para o sucesso. Este episódio um bom exemplo de como os soviéticos estavam desenvolvendo a iniciativa nos jovens líderes nas forças aerotransportadas e de assalto aéreo. Forças de infantaria motorizadas pareciam continuar a sofrer com a falta de inciativa causada pelos escalões mais altos.
O sucesso na guerra de guerrilha é difícil de definir e a contegem de corpos é certamente um critério ruim. Entretanto, um exemplo atrás do outro mostra cercos, varreduras e incursões em áreas que supostamente abrigavam centenas de guerrilheiros. Ao término da batalha ou operação, as baixas mujahedins são contadas em dúzias e a ação é considerada um sucesso porque a força de guerrilha foi esmagada. Pela experiência do Vietnã, a força de guerrilha é muito difícil de ser destruída. Depois de muito castigá-los, a maioria deles parece que ressurge. Fica a impressão de que o que os soviéticos normalmente engajavam era a retaguarda ou guerrilhas lentas e desinformadas. O bloqueio soviético parecia muito poroso (especialmente à noite) e a varredura parecia deixar muita coisa para trás.
A falta um corpo de sargentos profissionais realmente penalizava os soviéticos durante essas ações de bloqueio e varredura. De acordo com entrevistas que eu conduzi, um sargento conscrito era normalmente encarregado de um posto de bloqueio. Várias e várias vezes, os soldados soviéticos dormiam em seus postos ou não engajavam o inimigo por medo serem mortos na troca de tiros. Os sargentos deveriam corrigir isso, mas freqüentemente tinham que ser incitados a fazê-lo.
Comentários do VooTatico.com:
Uma coisa que salta aos olhos neste episódio é a capacidade de carga (ou falta de) dos Mi-8 em altitudes elevadas. O Mi-8MT é a mesma aeronave que a OTAN chamou de Mi-17 e não uma versão mais antiga como se pode pensar. A versão de exportação atual é a Mi-171; com um motor adaptado para climas hot-and-high. Mesmo assim, sou meio cético quando a um ganho realmente significativo de performance. O Mi-8/17 sofre por ser muito pesado. Comparando-o com o Cougar, tem um peso vazio praticamente igual ao do Cougar no peso máximo de decolagem.
Outra situação digna de destaque é que metade das aeronaves no escalão de assalto foi abatida. Ao que tudo indica, as aeronaves foram danificadas pelo fogo de armas leves e conseguiram pousar em emergência. Se não fosse assim, o número de baixas certamente seria bem maior.
Quanto à falta de sargentos profissionais, eu não sei como está organizado o Exército Russo nos dias de hoje. Até a década de 1980, nos tempos da União Soviética, o serviço militar era obrigatório e tinha uma duração de dois anos, divididos em quatro semestres de instrução e com incorporações também semestrais. Assim, conviviam numa mesma unidade, militares do primeiro, segundo, terceiro e quarto semestres de serviço. Esse sistema criava uma hierarquia informal, com os soldados do último semestre no topo e os que acabaram de ser incorporados na base.
Os recrutas que seriam promovidos a sargento eram escolhidos entre os que se destacavam durante o primeiro semestre de instrução. Estes realizavam o curso de sargentos durante o segundo semestre e retornavam às unidades, num esquema vagamente parecido com o Curso de Formação de Sargentos
Temporários do nosso exército. Nesta hora, além dos problemas citados pelo editor norte-americano, ocorriam problemas disciplinares: os soldados que estavam no quarto semestre muitas vezes não se submetiam às ordens dos sargentos que acabavam de entrar no terceiro semestre de serviço.
Essa visão do serviço militar soviético foi retirada do livro “A Terceira Guerra Mundial”, de John Hackett, escrito em 1979.
Ainda para enriquecer este artigo, este site mostra diversas fotos dos guerrilheiros mujahedins em sua base de Islam-Dara. Notem que as fotos são de 1989, quatro anos após esta operação.
até outubro de 1987 como chefe do estado-maior de um batalhão aerotransportado e como comandante de batalhão aerotransportado. Foi condecorado duas vezes com a “Ordem da Estrela Vermelha” e com a “Ordem da Bravura” afegã.
Leia também:
- Destruição de uma força de guerrilha por um assalto aeromóvel tático na província de Lowgar
- Um Assalto Aeromóvel na Área da Vila de Rumbasi
- Assaltos Aeromóveis Táticos nas Províncias de Nangarhar e Laghman

