por Toryalai Hemat[1. Toryalai Hemat foi um comandante de regimento de uma força móvel aliada a União Islâmica do Afeganistão de Sayyaf. Ele lutou em diversas províncias do Afeganistão.], traduzido por PFF
Em abril de 1987, os soviéticos e o exército afegão lançaram um ataque combinado contra um ponto forte mujahedin no distrito de Shinwar, na província de Nangrahar, próximo ao vale Nazian. O vale Nazian era densamente povoado apesar de muitos dos habitantes terem emigrado para o Paquistão para evitar os bombardeios soviéticos. O ponto forte mujahedin que o inimigo queria conquitar estava em Maro, a 70 quilômetros a sudeste de Jalalabad, próximo a fronteira do Paquistão. Diversos grupos mujahedin de diferentes facções estavam localizados ao redor de Maro e haviam provavelmente perto de 500 mujahedins bem armados na área do ponto forte. Os soviéticos chamavam este ponto forte de de região fortificada de Melava[2. O relato soviético desta batalha está no episódio 26 do livro The Bear Went Over the Mountain. O relato soviético erroneamente descreveu esta ação a nordeste de Jalalabad, um erro que o autor também cometeu baseado em um nome similar e alguns textos imprecisos.].
Durante os 18 dias que antecederam o ataque, os soviéticos realizaram ataques aéreos sobre a região. Então, uma coluna mecanizada soviética e afegã se deslocou para leste a partir de Jalalabad e, quando chegou na cidade de Shinwar, se dividiu em duas (v. mapa). Uma coluna se deslocou através de Shinwar até o vale Nazian enquanto a outra foi mais para leste até o subdistrito de Dur Baba e então atacou para sudoeste. O Comandante Saznur e seus homens defenderam a via de acesso a Dur Baba. O Comandante Khaled e eu, junto com dez outros mujahedins, defendemos Ghazgizar – o ponto mais alto da área que dominava Maro. O inimigo realizou pesados ataques aéreos contra nós. Após os ataques aéreos, helicópteros soviéticos desembarcaram forças de assalto aéromóvel no terreno elevado entre os dois eixos[3. Eram dois batalhões de assalto da 56ª Brigada de Assalto Aéreo de Gardez. Os batalhões se deslocaram por terra até Jalalabad e então até Shinwar. Então prepararam o assalto aeromóvel em um campo em Shinwar. O motivo deles não terem ido voando até Jalalabad e prepararem o assalto a partir do aeroporto é um mistério. A força de superfície era, em sua maioria da 66ª Brigada de Fuzileiros Motorizada Destacada soviética e da 11ª Divisão de Infantaria do Exército afegão.]. Foram realizadas por volta de 40 a 50 surtidas de helicópteros. Uma das zonas de pouso estava imediatamente à nossa frente. A luta foi feroz. Nove homens do meu grupo foram mortos pelas bombas ou enquanto lutavam contra a força de assalto aeromóvel. Apenas Khaled, Abdul Wakil e eu sobrevivemos. Os mujahedins (sob o comando de Saznur) inicialmente detiveram a coluna vinda de Dur Baba, mas a coluna vinda do vale Nazian avançou rapidamente e capturou Maro. Em meu grupo, nós três sobreviventes estávamos presos entre duas Zonas de Pouso de Helicópteros (ZPH). Nós escapamos da área, cruzamos a fronteira para o Paquistão e fomos a pé até próximo da vila de Bazar.
Esquema de manobra da ação no ponto forte Maro
Quando o inimigo conquistou Maro, muitos mujahedins atravessaram a fronteira e se reuniram em Bazar (agência Tirah, no Paquistão). Reforços das facções HIH e UIA se deslocaram para esta área. Voluntários árabes dos Talibãs, vindos das escolas religiosas também vieram para a luta. Nós lançamos um contra-ataque. A luta pelas bases foi tão intensa que às vezes se tornava um combate corpo-a-corpo. Eu pessoalmente estive tão perto de alguns russos durante a luta que poderia reconhecê-los hoje. O inimigo deixou muitos veículos para trás e muitos mortos no solo. Os soviéticos normalmente não deixavam seus mortos para trás, mas eu contei 75 soviéticos mortos. Eu não sei o número total de baixas entre os mujahedins, mas eu sei que 72 foram mortos ou feridos. Os soviéticos mantiveram Maro por apenas três dias. Eles queimaram e destruíram o que puderam e minaram a área antes de se retirarem.
Comentário: Os assaltos aeromóveis soviéticos em bases nas montanhas normalmente duravam de um a três dias. Como neste caso, os soviéticos preferiam ter tropas de superfície para realizar a junção com a força-tarefa aeromóvel. Eles tentaram cercar a conquistar a área, destruir tudo que fosse possível, minar o terreno e partir. E também tentaram evitar serem engajados em um combate nas montanhas com os mujahedins. Como nas operações Zahar e Magistral, os mujahedins inicialmente retraíram, se reagruparam e se reforçaram e então lançaram um contra-ataque. A proximidade da base com o Paquistão permitia aos mujahedins fazer isso. O planejamento e a execução desta ação pelos soviéticos foram bem realizados, mas aparentemente atrasaram a sua retirada e tiveram que combater em uma retirada às pressas.
A distribuição de forças dos mujahedins nos dois eixos foi desigual e o assalto aeromóvel impediu que os mujahedins empregassem a reserva contra o eixo ameaçado. A má distribuição das forças é devida, em parte, ao fato de que facções com poderes de combate diferentes estavam na área e as missões foram distribuídas por facções e não pelo poder de combate.
Comentário do Voo Tático: Neste capítulo podemos ver nitidamente que os americanos, diferente do Exército Brasileiro, não faz uma diferenciação clara do que é um assalto aeromóvel (uma operação de grande vulto, onde a tropa ocupa o terreno e aguarda a junção com outra tropa vinda por terra) e uma incursão (uma operação de pequeno efetivo, onde a tropa desembarca, cumpre sua missão e é exfiltrada imediatamente). Para eles, tudo é “Air Assault”, apenas com diferenciações no planejamento.
O autor citou que não sabe porque o assalto aeromóvel não partiu diretamente de Jalalabad e sim de uma Zona de Embarque em Shinwar. Jalalabad é certamente uma opção mas existem fatores favoráveis e desfavoráveis em se iniciar a operação num ponto mais distante.
Certamente, a infraestrutura de Jalalabad favorece a preparação de uma operação de vulto. A maior distância é um fator que aumenta a segurança quanto ao real objetivo da operação. De certa maneira, a operação fica mais simples, por envolver menos deslocamentos e uma outra área de embarque.
Por outro lado, estar próximo ao objetivo permite que se tenha o apoio da artilharia de tubo sem que esta fique exposta em um local desprotegido a meio caminho entre a Zona de Embarque e o objetivo (Shinwar ficava a 15 km de Maro). Permite também deslocamento mais rápido de helicóptero, de modo que as levas subsequentes cheguem mais rápido à Zona de Desembarque.
Eu até me arrisco a dizer que um fator “cultural” pode estar envolvido nessa questão. Me lembro de ter lido (não me recordo onde agora) que a maior parte dos voos dos russos no Afeganistão levavam em torno de 15 minutos, desde a decolagem, até o local do desembarque e o retorno à Zona de Embarque. Sempre buscavam deslocamentos curtos e dentro do alcance da artilharia. Os americanos já tem uma preferência por decolar de bases com mais recursos, mesmo que isso signifique fazer um deslocamento maior e deixar as primeiras levas isoladas por mais tempo na Zona de Desembarque. Um exemplo disso é o clássico assalto aeromóvel em Ia Drang (pode ser lido aqui).
Este mesmo episódio pode ser lido, narrados pelos russos, aqui. Ele também é simulado no wargame Combat Mission: Afghanistan. Um review dessa missão pode ser visto aqui.
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Uma coisa que me chamou a atenção, os soviéticos então tiveram de se retirar sob fogo dos guerrilheiros. Devo entender que a força de guerrilheiros conseguiu expulsá-los? Comparando com a guerra do Vietnã, isso acontecia com os americanos também? Posso estar enganado mas me parece que no Vietnam os americanos lutavam até a força inimiga ser destruída ou se retirar. Devo entender que o mesmo não acontecia com o exército vermelho.
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