Este texto foi uma das fontes que usei na minha dissertação para a EsAO. Encontrei-o na revista Air Power, editada pela USAF.
Ele fala das operações aéreas russas na Chechênia, mas vou ressaltar apenas alguns tópicos relativos à operação com helicópteros. O link para o texto completo está no final e vale a pena ser lido, principalmente a conclusão.
O mais intenso uso de operações de helicópteros ocorreu em maio de 1995, quando os antiquados Mi-24 empreenderam a maioria das missões de apoio de fogo. No final do mês, cinco a seis surtidas de combate eram realizadas por dia.
Os pilotos russos, por outro lado, não dispunham de quaisquer dados confiáveis sobre a disposição das armas chechenas, o que forçava as tripulações a operar a partir dos maiores alcances possíveis quando do emprego de seu armamento. Algumas tripulações de helicópteros empregaram uma tática nova, a de lançar seus foguetes não-guiados S-24 por meio de uma manobra de arfagem, assim aumentando o alcance da arma em seis a sete quilômetros. Isso permitia que os pilotos atirassem sem entrar na zona de destruição das armas de artilharia antiaérea das forças de Dudayev. Embora essa tática reduzisse a precisão, foi provavelmente um fator chave no aumento do número de baixas civis.
A coordenação com as unidades terrestres era freqüentemente difícil e agravada pela ausência de informação de reconhecimento tempestiva e precisa — a chave do êxito da missão de helicóptero. As próprias unidades de reconhecimento, que, na maioria das vezes, eram introduzidas e retiradas por helicópteros, observaram que eram colocadas em situações muito apressadamente e sem a coordenação com subunidades de infantaria ou com meios de aviação.
Os chechenos fizeram amplo uso de emboscadas, tentando imobilizar helicópteros assim que adentrassem uma zona de tiro eficaz, mediante a concentração de fogo a partir de diversos pontos.
Esta técnica de disparar os foguetes em stand-off já havia sido empregada dez anos antes, no Afeganistão, pelos mesmos motivos.
Um analista, escrevendo no jornal russo Krylya Rodiny, assinalou que as tripulações dos helicópteros tinham mais dificuldades do que qualquer outra, voando muito baixo em condições meteorológicas péssimas e com freqüência retornando à base de origem com buracos de bala nos pára-brisas das cabinas. As estatísticas indicam que 1 em cada 10 helicópteros que participaram do conflito foi perdido e 1 em cada 40 foi danificado.
[Em agosto de 1995] perto de 36% das surtidas foram missões de tiro; 44% foram de transporte-assalto aéreo (com mais de 90% dos feridos evacuados pela aviação do Exército); 8% foram vôos de reconhecimento e os 12% restantes foram missões especiais tais como busca e salvamento, propaganda ou retransmissão de rádio. Tal informação indica como a natureza das missões dos helicópteros mudou à medida que a guerra continuava e os russos se adaptavam à situação.
[No início do conflito] o grupamento da aviação de helicópteros era primordialmente utilizado para transportar tropas e evacuar doentes e feridos, no início do conflito. Também dava apoio aos movimentos das colunas e agiam como elos de comunicação, mas apenas raramente serviam como helicópteros de ataque.
Essa é uma idéia que eu (e boa parte da AvEx) tem diferente. A nossa concepção atual é que a maioria das missões seria de reconhecimento. Nesse caso da Chechênia, foram apenas 8%. Por outro lado, consideramos hoje que o assalto aeromóvel é uma operação muito difícil de ser realizada, dependente de uma enorme quantidade de fatores alheios a nossa vontade. Na Chechênia, eles somaram 44% dos vôos (muito provavelmente estão incluídos aí todos os transportes de tropa – assaltos propriamente ditos, incursões, infiltrações, etc). Mesmo assim, é um número bem alto.
Após quase um ano de luta, os pilotos russos realizaram algumas avaliações do seu equipamento, julgando os helicópteros Mi-24, o Mi-8 e Mi-6 tecnicamente obsoletos. Essas aeronaves tinham capacidade de desdobramento limitadas, em termos da hora do dia e das condições meteorológicas. Helicópteros mais novos, como o Ka-50 e o Mi-28, não foram empregados. O Mi-8MTV2, o Mi8MTV3 e o Mi-26 apresentaram bom desempenho.
Não apenas aqui, mas em várias outras literaturas, o Mi-24 é citado como tendo inúmeras deficiências. Há algum tempo, escrevi um post sobre ele (Mil Mi-24 Hind) citando esses problemas.
O autor cita no texto que o Ka-50 e o Mi-28 não foram empregados na Chechênia. Na verdade, o Ka-50 foi empregado apenas na segunda campanha (1999-2000) num grupo experimental, quase que à parte das forças regulares russas. Dados sobre este grupo experimental podem ser encontrados aqui.
Lições aprendidas
A Chechênia forneceu muitas outras lições aos pilotos de asas rotativas. Estas incluíam limitar o dano a residências e instalações civis; superar a baixa proficiência de muitos pilotos no vôo de combate (em virtude da carência de horas de vôo, hoje um décimo em relação às da maior parte das nações ocidentais); ajustar-se à incapacidade de conduzir livremente o reconhecimento (visto que qualquer aldeia poderia, em dado momento, desencadear fogo cerrado) (…)
Um treinamento realista é essencial […]. As horas de treinamento no ar devem ser intensas e desafiadoras, e devem ser complementadas por horas em simuladores imediatamente antes da realização de uma missão.
Um coronel russo, na reserva, atribuiu a culpa do desempenho dos pilotos à tática de ataques de retaliação contra um inimigo que usava o princípio de ataque-retirada-ataque. Isso tirou a iniciativa dos pilotos russos e conduziu a ações retardadas e à diminuição da capacidade de combate.
Talvez a realidade seja que a aviação do exército tem um papel limitado como elemento de combate em conflitos de baixa intensidade.
Eu não generalizaria desta maneira. Acredito que missões de emprego geral, transporte de tropas, SAR, etc ainda tenham seu lugar garantido. Mas as operações de ataque se mostraram menos eficazes quando realizadas por helicópteros do que quando realizadas por aeronaves de asa fixa.
Operações Aeromóveis em conflitos de baixa intensidade; pode ser lido em inglês aqui.
Leia também:
- Operações aeromóveis em conflitos de baixa intensidade – O caso do Iraque
- A Aviação do Exército russo na Chechênia
- Operações aeromóveis no conflito entre a Rússia e a Geórgia, I


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