Há alguns dias, recebi um email com o seguinte artigo do Pravda em Português:
Nos EUA, pode ser contratado pelo Governo para matar.
Li por alto quando recebi, mas apenas agora fui ter tempo de dar uma olhada melhor no que se tratava. O texto na verdade é um ajuntado de vários outros. Como “quem conta um conto acrescenta um ponto”, a cada versão ele vai ficando mais sensacionalista. Ao ler com cuidado as diversas referências, vemos que o título que saiu em português tem bem pouco a ver com a realidade.
A grande questão que está sendo levantada – talvez com razão – é a presença de civis no que foi chamado de kill chain: o protocolo a ser seguido desde a identificação do alvo até o lançamento de um armamento.
Os civis citados são funcionários tem uma empresa que presta serviços de análise de imagens para a USAF. Eles monitoram minuto a minuto as informações dos VANTs que voam o tempo todo sobre o Afeganistão e em outras áreas onde os EUA estão operando.
Basicamente duas questões são levantadas quanto ao emprego de civis (sem entrar no campo jurídico, sempre obscuro até mesmo para os iniciados): qual o preparo desses funcionários e quão comprometidos eles estão com as diretrizes militares. Os artigos citam a pior situação possível: os civis, por serem civis, são incompetentes e descompromissados; o que é puro preconceito.
O fato que chamou a atenção para essa situação da presença de civis na kill chain ocorreu no Afeganistão. Um grupo de civis foi identificado como potencialmente inimigo por uma analista civil e um ataque aéreo foi realizado contra esse grupo. O fato é que os civis contratados estão na base dessa cadeia e a interpretação errada atravessou todos os escalões.
A outra ideia que está sendo transmitida de maneira errônea, pelo menos a meu ver, é a de que “os pilotos estão sendo obrigados a pilotar quatro drones simultaneamente”. O aumento no número de VANT realmente preocupa a USAF e o programa para desenvolver sistemas com um maior grau de autonomia existe. Porém ele ainda está numa fase bastante embrionária e apenas voos de testes foram realizados com um piloto controlando dois VANTs.
Eu não sei exatamente o que esse negócio de voar mais de um VANT significa. Um único VANT Predator exige uma tripulação de cinco militares. Alguns deles realmente podem acumular funções em mais de um VANT, sem ter uma carga de trabalho excessiva, penso eu. Mas os artigos disponíveis realmente não deixam claro qual função que vai ser acumulada.
Certamente não vai ocorrer a situação em que a carga de trabalho se torne inaceitável. Isso faz parte da própria homologação do projeto de qualquer aeronave.
As forças armadas americanas são as que, de longe, mais operavam VANTs. E acredito que são as que mais empregam civis em funções que normalmente são exclusivas de militares na maioria dos países. Tanto no caso dos VANT, como no caso dos civis, tiveram muitas boas experiências e algumas experiências muito ruins que colocam em cheque toda a validade desse emprego.
Embora os textos sejam baseados em situações reais, a maneira com que foram contados distorceu bastante os fatos. Não existem pilotos voando quatro VANTs ao mesmo tempo e nenhum civil está tomando decisões de vida ou morte – ao menos nos fatos narrados.
Artigos de referência:
- Civilian contractors playing key roles in U.S. drone operations
- US Civilians Are Now Helping Decide Who To Kill With Military Drones
- Nos EUA, pode ser contratado pelo Governo para matar
- Pilotos dos drones: “É legal. Nos EUA, você pode ser contratado para matar”
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