Porque os Sistemas Aéreos Não-Tripulados são meios de Aviação?

by PFF on 23 de janeiro de 2012 · 6 comments

in Aviação Militar

VANT VT-15

Quando se fala em Veículos Aéreos Não-Tripulados, inevitavelmente surge a pergunta: o que isso tem a ver com a Aviação do Exército? Na maioria das ocasiões, a resposta normalmente é “Nada! A nossa Aviação é dotada de helicópteros tripulados, aeronaves de verdade e não de aeromodelos.”

“A pilotagem é apenas uma pequena parte da especialização em Aviação.” – Cel CASTRO, ex-Cmt CIAvEx

Inicialmente, vou explicar porque estou usando o termo SANT (Sistema Aéreo Não-Tripulado) e não VANT (Veículo Aéreo Não-Tripulado), como é mais comum. O sistema é composto por quatro subsistemas principais:

  • a aeronave propriamente dita (o VANT);
  • os seus sensores e armamentos, se for o caso;
  • seus equipamentos de comunicação e transmissão de dados e
  • a estação terrestre, de onde é conduzida a operação.

Portanto, não é correto achar que a operação de um SANT se resume a pilotar um “aeromodelo mais avançado”. Cada um desses subsistemas – talvez até mais complexos que os das aeronaves atuais da Aviação do Exército – exige especialistas qualificados para operá-los e manuteni-los. Além desse enfoque técnico, o enfoque tático da operação também exige qualificações bastante específicas, que serão tratadas mais adiante.

Vou usar aqui o exemplo do Exército norte-americano, por ser a força armada que mais emprega esse tipo de sistema no mundo todo. Inicialmente, os SANT foram designados para a arma de Inteligência – lá a Inteligência é uma arma. A Inteligência foi responsável por implantar, integrar os SANT aos demais sistemas operacionais e operá-los em suas fases iniciais. Não demorou, porém, para perceber que as possibilidades do VANT extrapolavam em muito as missões típicas da Inteligência. Busca de alvos, condução de fogos e guiamento de munições inteligentes, retransmissão de comunicações, guerra eletrônica, escolta de comboios e até mesmo ataques aéreos são missões rotineiramente cumpridas pelas aeronaves não-tripuladas e que fogem à tríade Inteligência-Reconhecimento-Vigilância para a qual ele foi visualizado inicialmente.

Com a multiplicidade das missões, começaram a surgir os problemas na área de padronização, adestramento e controle do espaço aéreo. A solução encontrada por aquele exército foi centralizar todos os SANT na arma de Aviação e criar, no ano de 2003, em Fort Rucker, um Centro de Excelência de Sistemas Aéreos Não-Tripulados (UAS-CoE, sigla em inglês). Esse centro é o responsável – entre outras atribuições – por desenvolver a doutrina e o treinamento, assessorar o comando do Exército, sincronizar os esforços e padronizar todos os assuntos relativos aos SANT no Exército americano.

De 2001 até 2010, o Exército americano realizou mais de um milhão de horas de voo não-tripulado, sendo praticamente 90% delas em combate. No final do ano passado, foi realizado um simpósio da Aviação do Exército americano focado exclusivamente nos sistemas não tripulados. Nessa ocasião, militares ingleses e australianos relataram a mesma situação: os SANT, designados para unidades que não eram de Aviação, tiveram problemas principalmente quanto à coordenação e controle do espaço aéreo. No início de 2010, por exemplo, houve duas situações de colisão iminente entre VANTs e helicópteros em exercícios no Reino Unido.

Voltando as vistas para o nosso Exército, vamos estudar a estrutura que a Aviação dispõe para, num primeiro momento, formar os recursos humanos que operarão os sistemas não-tripulados. Para isso, devemos considerar o SANT – embora tenha muitas particularidades – não como um sistema totalmente novo, mas como uma nova aeronave que a Aviação irá operar.

Na vertente da manutenção, a Aviação tem uma estrutura já pronta, desde os cabos e soldados auxiliares de mecânico e de pista, já habituados ao trato com aeronaves, passando por sargentos e subtenentes especialistas em manutenção de aeronaves em seus diversos sistemas (estrutura, motor, aviônicos) até oficiais gerentes de manutenção, aviônica e suprimento específicos de aviação. Diferente de um novo curso, estes especialistas necessitarão apenas de um curto estágio de adaptação à nova aeronave, como já é feito rotineiramente na Aviação.

Para saber mais sobre  os detalhes das operações com SANT no Exército Americano, consulte o manual FM 3-04.155 Army Unmanned Aircraft System Operations
.Na vertente operacional, faço novamente referência ao Exército americano. O manual de operações com sistemas não-tripulados diz que “as considerações para o planejamento e emprego de SANT são praticamente idênticas às dos meios tripulados de Aviação”. E complementa dizendo que o emprego na terceira dimensão traz a responsabilidade de manter a separação entre os SANT do Exército e os demais sistemas, tripulados ou não, sempre competindo pelo mesmo espaço aéreo.

A Aviação do Exército possui hoje oficiais com os cursos de Piloto de Combate e Avançado de Aviação, capazes de planejar e conduzir as operações e também de coordenar o uso do espaço aéreo junto aos demais usuários, sejam do próprio Exército, sejam das demais forças armadas.

Ainda na vertente da operação, a Aviação do Exército já dispõe de um estágio voltado para os operadores de sensores do sistema “Olho da Águia”. Este mesmo estágio, com as adaptações devidas ao modelo do aparelho, também servirá aos operadores de sensores do SANT.

Resta saber quem, efetivamente, irá pilotar as aeronaves. Buscando ainda a experiência de outras forças armadas, encontramos desde militares da base da escala hierárquica até oficiais-pilotos já formados em aeronaves tripuladas de alta complexidade. Naturalmente, sistemas que ofereçam mais recursos também exigem tripulações mais qualificadas.

Independentemente da resposta a essa questão, o Curso de Piloto de Aeronaves oferece as matérias teóricas necessárias a esse tipo de operador: aerodinâmica, meteorologia, trafego aéreo, navegação etc. Um provável curso de operador de VANT teria módulos bastante semelhantes ou mesmo instruções comuns.

Ao fim pode-se concluir que, ao encararmos esse sistema como ele realmente é – uma Aeronave Remotamente Pilotada dotada de sensores e sistemas de armas –, a Aviação do Exército é a escolha natural para abrigar a formação dos especialistas e a operação desses novos vetores.

Artigo originalmente publicado no informativo Águia nº 207, de novembro de 2011.

Imagem: VANT VT-15 do Exército Brasileiro (Foto: Sgt Presotto)


-- Download as PDF --


Leia também:

About

Post comment as twitter logo facebook logo
Sort: Newest | Oldest
jabu1000 5 pts

Sempre tive curiosidade de saber como delay entre a imagem ser captada pelo sensor e ser exibida ao operador e o delay entre a o comando dado pelo operador e a resposta do veículo afetam a operação dos veículos não tripulados.

Leo_ 5 pts

Discordo em partes deste artigo. O piloto é meio nobre e, portanto, desviar a finalidade principal para a execução de missões de VANT seria desperdício de tempo (formação) e dinheiro (horas de vôo). A operação do SHELTER (estação terrestre) é simples, não requer tanta especialização como está prevendo, bem como, o piloto deve estar preocupado em sua missão principal (a de pilotagem). A parte de inteligência, busca de alvos, monitoramento, devem ser feitos por pessoas especialistas em nessas áreas. Por último, concordo sim que a aviação é o local que mais oferece meios, pessoal especializado em aviação (consequentemente no VANT); mas isso não quer dizer que um núcleo possa ser criado em outro local.

O importante é não sermos "exclusivistas".

PFF 14 pts moderator

Leo_ A finalidade principal do piloto militar não é pilotar e sim cumprir a sua missão. A pilotagem é uma parte, mas o cumprimento da missão envolve muitas outras habilitações, conforme já foi dito na citação lá no início do texto.

As Forças Armadas que empregam pilotos já formados nas operações com VANT (como a USAF e a FAB) certamente não o fazem pela habilidade de pilotagem desses militares, mas por todo o conhecimento de aviação militar que eles já adquiriram ao longo de suas carreiras.

Não há dúvida que pilotar o VANT é, de maneira geral, mais simples que uma aeronave tripulada, mas todo o restante da operação envolve um grau de complexidade que exige um especialista em aviação.

My latest conversation: Figura de um tripulante do 160º SOAR

arthurjfluna 5 pts

Parabéns PFF exelente artigo, oportuno e elucidativo.

anonimousbr 5 pts

Primeiramente, é importante reconhecer a importância e a necessidade desta ferramenta nas operações militares, seja na paz ou na guerra. Infelizmente, muito se fala em projetos e discussões sobre quem vai operar ou ser responsável pelo sistema, mas o assunto é totalmente negligenciado pelo EB. O poir, a FAB e a MB já estão operando e desenvolvendo conhecimento com os SANT (VANT, ARP ou Drones, seja lá a mania de cada um), o que possibilita dominar o now how e a conciência situacional, em tempo real. Resumindo, o EB vai ficar de fora dessa evolução até surgir um conflito real ou fazer as coisas nas coxas, gastando muito recursos e tempo. Fica a pergunta para o site, quem conhece a CONDOP de VANT publicada no BRE 12/2009?

Previous post:

Next post: