Lituânia cancela compra de três C-390 da Embraer e adia decisão para depois de 2030

Leonardo A Santos
Publicado em: 27 de janeiro de 2026
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Governo báltico desiste de três cargueiros brasileiros e prioriza defesa aérea enquanto moderniza frota antiga de C-27J Spartan por 150 milhões de euros

A Lituânia decidiu adiar a aquisição do Embraer C-390 Millennium. O anúncio foi feito após reunião do Conselho de Defesa do Estado. O país báltico havia selecionado o cargueiro brasileiro em junho de 2025, durante o Paris Air Show com planos de adquirir três unidades. Agora a compra fica congelada até depois de 2030.

Lituânia cancela compra de três C-390 da Embraer e adia decisão para depois de 2030
C-390 Millennium | Foto: Embraer/divulgação

A decisão marca um revés significativo para a Embraer, o contrato estava estimado entre 700 e 800 milhões de euros cerca de R$ 4,39 a R$ 5,02 bilhões. Em vez de comprar aeronaves novas, o governo lituano vai modernizar sua atual frota de três C-27J Spartan por aproximadamente 150 milhões de euros, valor cinco vezes menor que o investimento inicial previsto para o C-390.

Deividas Matulionis, assessor presidencial de segurança nacional, explicou à emissora pública LRT que as conversas sobre novos cargueiros devem ser retomadas apenas por volta de 2030. “A compra de novas aeronaves de transporte militar está sendo adiada”, afirmou durante coletiva no Palácio Presidencial.

Prioridades orçamentárias forçam mudança de rota

O Ministério da Defesa Nacional justificou o adiamento pela necessidade de concentrar recursos em áreas consideradas mais urgentes. A lista de prioridades inclui fortalecimento da defesa aérea, desenvolvimento do poder de fogo, apoio à infraestrutura militar, formação de estoques e manutenção do suporte de longo prazo à Ucrânia.

Robertas Kaunas, vice-ministro da Defesa, foi direto. “No momento, não temos fontes claras de financiamento para comprar essas aeronaves”, disse. A criação de uma nova divisão do Exército lituano até 2030 e a recepção de uma brigada alemã até o fim de 2027 também estão na lista de gastos urgentes.

A defesa aérea aparece como prioridade absoluta. Nos próximos três anos, cerca de 500 milhões de euros serão destinados ao fortalecimento desse sistema. “Estamos economizando onde podemos economizar onde as questões não são prioridade”, completou Kaunas.

C-27J Spartan vai operar até 2036

A frota lituana de C-27J Spartan está em operação desde 2006. A primeira aeronave chegou naquele ano e as outras duas entraram em serviço em 2008 e 2009. São 18 anos de operação ininterrupta.

Mas os Spartans já dão sinais claros de envelhecimento. Autoridades militares lituanas descrevem as aeronaves como plataformas que enfrentam dificuldades crescentes de sustentação. Parte significativa dos componentes necessários já saiu de linha. Outros ainda são produzidos, mas em quantidades limitadas e com previsão de descontinuação adicional.

A modernização prevista visa estender a vida útil dos C-27J até 2036. Segundo o governo, a atualização permitirá ganho de tempo operacional até que uma decisão definitiva sobre substituição da frota seja tomada na próxima década. O custo de 150 milhões de euros é módico quando comparado aos 700-800 milhões necessários para o C-390.

Mas a solução é paliativa, oficiais já admitiram que a atualização não elimina problemas estruturais ligados à cadeia de suprimentos. Algumas peças simplesmente não existem mais no mercado.

C-27J Spartan da Força Aérea da Lituânia que será modernizado até 2036
Um dos C-27J Spartan Lituânia | Foto: Anna Zvereva/divulgação

Controvérsia política e investigação anticorrupção

O processo de seleção do C-390 virou um caldeirão político na Lituânia, parlamentares da oposição questionaram tanto o custo quanto os critérios técnicos utilizados. O Serviço Especial de Investigação (STT) abriu inquérito preliminar para avaliar se o processo seguiu corretamente as regras de compras públicas.

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Um dos pontos mais sensíveis foi a discussão sobre requisitos operacionais. Deputados levantaram suspeitas de que a preferência por motores a jato poderia ter limitado a concorrência. A maioria dos aviões de transporte militar disponíveis no mercado usa motores turboélice. As Forças Armadas lituanas negaram qualquer direcionamento afirmando que os requisitos não especificavam tipo de motorização.

Laurynas Kasčiūnas, parlamentar da oposição conservadora, chegou a acusar o presidente Gitanas Nausėda de ter interesse pessoal na aquisição. A ex-ministra da Defesa Dovilė Šakalienė rebateu as acusações em setembro passado, classificando-as como fake news.

Apesar da investigação em curso, autoridades garantem que ela não influenciou a decisão de adiar a compra. Segundo o assessor presidencial, a escolha reflete exclusivamente reavaliação estratégica no atual contexto de segurança.

Embraer perde mercado

A Embraer havia avançado significativamente na cooperação com empresas lituanas. Em agosto de 2025, a fabricante brasileira assinou oito memorandos de entendimento envolvendo manutenção, reparo, revisão, engenharia e cadeia de suprimentos.

A estratégia era criar uma rede local de suporte para o C-390, gerando empregos e transferência de tecnologia. Delegações de especialistas da Embraer chegaram a percorrer o país báltico visitando instalações e reunindo-se com empresas locais.

Com o adiamento, a Lituânia se retira do programa multinacional de aquisição do C-390 liderado pela Holanda. O país agradeceu às autoridades holandesas pela cooperação durante o processo.

Durante o período de transição, as necessidades de transporte militar serão atendidas pela frota modernizada de C-27J e por mecanismos de cooperação da OTAN. A Lituânia participa do Programa de Capacidade de Transporte Aéreo Estratégico da aliança, que oferece acesso a transporte de longo alcance.

Embraer Cooperacao Industrial Lituania
Foto: U.S. Air Force / Airman 1st Class Dana J. Butler/Released

Perspectivas para além de 2030

Caso a Lituânia retome discussões sobre novos cargueiros a partir de 2030, o cenário será completamente diferente. O contexto orçamentário pode ter mudado, os requisitos técnicos podem ser revistos e a própria tecnologia aeronáutica terá evoluído.

Robertas Kaunas afirmou que o adiamento permite ao país focar em necessidades imediatas de capacitação. Segundo ele, a postergação também abre possibilidade de escolher aeronaves tecnologicamente mais avançadas quando as negociações forem retomadas.

Para a Embraer, o adiamento representa mais um exemplo de como decisões de aquisição militar na Europa estão condicionadas não apenas a fatores técnicos, mas a pressões políticas internas, limitações fiscais e necessidade de responder rapidamente a ameaças percebidas como imediatas.

O C-390 já foi selecionado por Portugal, Hungria, Holanda, Áustria, República Tcheca, Suécia e Eslováquia. São oito países europeus que escolheram o cargueiro brasileiro. A Lituânia seria o nono.

Leonardo A Santos

Leonardo A Santos

Apaixonado por aviação e compartilho notícias e curiosidades sobre defesa, estratégia militar e tecnologia aeronáutica.

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