

A batalha da Inglaterra
Este mês marca o 75° aniversário da Batalha da Inglaterra. Naquela ocasião, a Força Aérea britânica (Royal Air Force, RAF) venceu em seguidos embates, as aeronaves alemãs, que estavam em maior número e tinham um desempenho superior, durante os ataques contra Londres e outras grandes cidades do Reino Unido.
Ocorreram diversas comemorações, como a do vídeo abaixo, da qual participaram alguns do pilotos da época, com mais de 90 anos hoje em dia.
Uma das citações mais conhecidas da guerra, proferida por Winston Churchill também é relativa a essa batalha:
Nunca antes no campo dos conflitos humanos, tantos deveram tanto a tão poucos.
Um aspecto fundamental, ainda que menos conhecido, sobre esse evento é o sistema de alerta idealizado pelo general Hugh Dowding. Em que pese a habilidade e heroísmo dos pilotos da Royal Air Force, a vitória nessa batalha apenas foi viabilizada devido a esse sistema.
O desenvolvimento do sistema de defesa das ilhas britânicas, descrito em detalhes no capítulo From Radio to Radar, de Alan Beyerchen, possibilitou que os esquadrões de caça da RAF pudessem ter um alerta antecipado das surtidas de bombardeiros da Luftwaffe e interceptá-las antes que realizassem seus ataques.
No início da década de 1930, Stanley Baldwin, em discurso no parlamento britânico, disse que “the bomber will always get through”, ou seja, os bombardeiros sempre irão atravessar e conseguir atingir seus alvos, independente do sistema de defesa adotado. Não havia o conceito de um sistema de detecção que pudesse alertar os defensores contra um ataque aéreo. As pesquisas se concentravam principalmente em microfones de alta sensibilidade e conchas ou paredes acústicas que buscavam identificar o ronco dos motores com antecedência, imitando o princípio dos sonares que equipavam os submarinos. Como esse sistema era bastante impreciso, era necessário manter caças constantemente voando nas prováveis rotas de aproximação. Isso se mostrava excessivamente custoso e se tornaria inviável em um conflito real.
Já nessa época, Robert Watson-Watt, um físico contratado pelo governo inglês para estudar os sistemas de defesa aérea, realizava uma pesquisa sobre como construir um “raio da morte”, induzindo o aumento da temperatura em objetos através de ondas eletromagnéticas. O experimento do raio obviamente não atingiu os objetivos desejados, mas um resultado colateral foi uma grande quantidade de dados sobre a reflexão das ondas em diversos tipos de superfície. O prosseguimento dessa pesquisa ao longo da década de 1930 resultou nos primeiros protótipos de radar.


Em 1936, o general Dowding assumiu o Comando de Caças da RAF. Durante o período entreguerras, a aviação de caça não tinha o destaque que lhe é conferido hoje em dia e o Comando de Caças não era um posto de grande prestígio. O poder aéreo era medido quase que exclusivamente pelos bombardeiros. Pesa ainda o fato de que os caças ingleses tinham um desempenho nitidamente inferior aos alemães.
Dowding, trabalhando ao lado de Watson-Watt, começou a idealizar um sistema para a defesa das ilhas num posto de pouco prestígio, contando comum orçamento relativamente pequeno, aeronaves e tripulações tecnicamente inferiores (os alemães haviam adquirido experiência durante a Guerra Civil Espanhola e a invasão da Polônia) e indo contra o pensamento reinante de que os bombardeiros sempre iriam passar.
O sistema se baseava em uma rede de estações de radar, complementada por postos de vigia e equipes que monitoravam as frequências de rádio da Luftwaffe, que buscava identificar os ataques aéreos com antecedência e precisão. Um comando central, nos arredores de Londres priorizava as ameaças e ordenava a decolagem das esquadrilhas que realizariam as interceptações.
A grande evolução proporcionada por Dowding não era de natureza puramente técnica, embora o desenvolvimento do radar tenha alavancado a eficiência do sistema. A maior parte dos ataques foi detectada pela interceptação das mensagens de rádio e não pelos radares em si. A verdadeira evolução se encontra da estrutura do sistema, interligado por cabos telefônicos enterrados e com várias redundâncias e, principalmente, no seu esquema de funcionamento, através do trinômio sensor-decisor-atuador, empregado até hoje.
Muitas das inovações que surgiram na 2ª Guerra Mundial são consideradas revolucionárias, quando, na verdade, foram gestadas longamente durante os vinte anos que separam as duas guerras mundiais. O sistema de defesa aérea da Grã-Bretanha é uma das poucas inovações que pode ser considerada realmente revolucionária, pois partiu de uma pesquisa puramente teórica para um conceito operacional totalmente novo. Tanto Dowding quanto Watson-Watt estavam nas funções certas para aquele trabalho e a sinergia entre ambos foi fruto do mero acaso. Talvez outras pessoas naquela posição não teriam atingido resultados nem mesmo próximos.
Graças a esse sistema, os ataques alemães eram localizados com precisão e os poucos caças britânicos eram direcionados até bem próximo dos alvos, otimizando seu emprego. Foi o que permitiu que tão poucos fizessem tanto.