Menos de dez países no mundo conseguem projetar e construir um caça supersônico do zero, os Estados Unidos, China, Rússia. Desde 15 de abril de 2026, a Coreia do Sul entrou de vez nessa lista.
O KF-21 Boramae completou seu voo inaugural em versão de produção em série, não um protótipo, não uma maquete de demonstração. Um avião real, serial 25-001, construído para voar em combate. Decolou de Sacheon, foi escoltado por um FA-50 Fighting Eagle e voltou sem registrar nenhuma anomalia. Simples assim, e o que parece simples levou 16 anos para acontecer.

Sobre o programa KF-21 Boramae
O programa começou em 2010, ainda chamado de KF-X. A ideia era ambiciosa e para muitos analistas da época, arriscada demais desenvolver um caça multifunção moderno sem depender de transferência total de tecnologia estrangeira. A Korea Aerospace Industries (KAI) ficou encarregada do projeto, e o governo sul-coreano bancou 60% do financiamento.
O resultado é o Boramae. Em coreano, o nome significa falcão de combate e a aeronave entrega o que o apelido promete.
Geração 4,5
Classificar um caça como “geração 4,5”, é uma posição técnica precisa no espectro entre os veteranos F-16 e F-15 (geração 4) e os modernos F-35 e F-22 (geração 5). O KF-21 fica exatamente nesse meio e foi uma escolha deliberada.
O Block I não tem baia interna de armamentos, o que significa que a furtividade é parcial. Mas traz radar AESA Hanwha APY-016K com cerca de 1.000 módulos transmissores/receptores, capaz de detectar alvos a 150–200 km e rastrear 20 deles ao mesmo tempo. Mais motor GE F414, o mesmo que move o F/A-18 Super Hornet americano, velocidade máxima de Mach 1,8 e carga útil de armamentos de 7.700 kg.
Furtividade total, com baia interna, fica reservada para a versão Block III, ainda em desenvolvimento.
O voo de 15 de abril
O avião saiu da fábrica no dia 25 de março de 2026, voou pela primeira vez 22 dias depois.
Parece detalhe, não é. O protótipo original do KF-21, em 2021, precisou de 466 dias entre o rollout e o primeiro voo. O F-22 precisou de cerca de 150 dias. Para um avião de produção chegar ao ar em 22 dias, os sistemas precisam estar maduros, os testes de aceitação precisam ser rápidos e a fabricação precisa ter acumulado aprendizado suficiente para não precisar reaprender nada no chão.
Isso é, tecnicamente, o sinal mais claro de que o programa saiu da fase experimental. A campanha de testes com os seis protótipos registrou mais de 1.600 missões desde julho de 2022, sem acidentes. O primeiro exemplar de série chegou à linha de voo herdando toda essa base de dados.
Da fábrica à entrega
Após o voo inaugural, o 25-001 entra na fase de testes de aceitação, verificação de sistemas, avionics, radar e integração de armamentos. Com isso concluído, a Força Aérea da República da Coreia (RoKAF) deve receber as primeiras unidades ainda no segundo semestre de 2026.
O plano prevê capacidade operacional inicial antes do fim do ano, com capacidade operacional plena projetada para 2028.
Versões do KF-21: Block I, II e III
O Boramae não é um produto acabado e sim uma plataforma pensada para crescer.
Block I — Em produção agora, foco em missões ar-ar. Armamentos integrados até o momento incluem o míssil Meteor (alcance superior a 100 km) e o IRIS-T alemão. AIM-120 AMRAAM e AIM-9X Sidewinder estão previstos, mas ainda em processo de integração.
Block II — Em desenvolvimento, vai expandir as capacidades ar-superfície e aprofundar a integração de sistemas. Outros 80 aviões já estão contratados para a RoKAF nessa configuração.
Block III — Ainda em estudo, aqui entram a baia interna de armamentos (furtividade plena), missões de supressão de defesas aéreas com mísseis AGM-88E AARGM e AGM-88G AARGM-ER, e capacidade avançada de guerra eletrônica. Uma variante denominada KF-21EJ, voltada especificamente para guerra eletrônica, já foi revelada pela Coreia do Sul.
O plano total prevê 120 aeronaves entregues à RoKAF até 2032, substituindo os velhos F-4 Phantom que foram aposentados em 2025 e os KF-5 Tiger II, que devem seguir em breve.

Exportação do KF-21
A Indonésia é a parceira fundadora do programa. Em 2016, Jacarta se comprometeu a financiar 20% dos custos de desenvolvimento, cerca de US$ 1,25 bilhão. O pagamento foi turbulento, paralisado de 2019 a 2022, retomado com dificuldade, renegociado.
Em 2025, os dois países fecharam um acordo revisado que reduziu a contribuição indonésia para cerca de US$ 443 milhões, mas preservou a participação industrial e a previsão de recebimento de 48 aeronaves. A empresa PT Dirgantara Indonesia vai produzir componentes de fuselagem.
Mas a lista de interessados vai além.
Filipinas estudam o KF-21 para seu programa de caça multifunção futuro. Malásia avalia o Boramae ao lado do Su-57 russo para o programa MRCA. Polônia monitora o programa desde 2022. Emirados Árabes Unidos já foram oficialmente vinculados a conversas com a KAI. Peru assinou um memorando de entendimento para produzir componentes localmente como parte de eventual aquisição. O Egito demonstrou interesse formal no portfólio KAI, incluindo o KF-21.
A Coreia do Sul construiu credibilidade como exportadora de defesa nos últimos anos, o K9 Thunder, K2 Black Panther, FA-50 e o KF-21 surge como o produto de maior valor dessa prateleira.
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