Aquisição via acordo Governo-Governo com a Itália inclui mísseis CAMM-ER, radares Leonardo e integração com as fragatas Tamandaré da Marinha
O Exército Brasileiro bateu o martelo. Por meio da Portaria EME/C Ex nº 1.086, de 22 de dezembro de 2025, a Força formalizou a diretriz de obtenção do sistema EMADS (Enhanced Modular Air Defence Solutions), da europeia MBDA, e deu início ao processo que vai dotar o Brasil, pela primeira vez, de um sistema moderno de defesa antiaérea de média altura e médio alcance. A compra será feita por acordo Governo-Governo (G2G) com a Itália e tem caráter emergencial.

Por que o EMADS e por que agora
O Brasil não tinha até então nenhum sistema capaz de interceptar ameaças em média altitude. As unidades antiaéreas do Exército operam basicamente com mísseis portáteis e blindados Gepard, eficazes contra alvos próximos e em baixa altitude, mas completamente limitados contra drones sofisticados, mísseis de cruzeiro ou aeronaves voando mais alto.
O especialista Luciano Veneu, do Boletim Geocorrente da Escola de Guerra Naval, já havia alertado que essa carência criava uma vulnerabilidade estrutural séria. A comparação com a Venezuela, que opera o S-300VM russo, deixa o cenário ainda mais desconfortável para o lado brasileiro. Mesmo que a eficácia prática do S-300 venezuelano seja debatida, a simples presença de um escudo de longo alcance em um país vizinho muda o cálculo estratégico. E o Brasil estava respondendo a isso com um “escudo curto”, sem cobertura de 360 graus em média altura.
A diretriz classifica a aquisição como emergencial, citando a piora do ambiente estratégico global. Finalmente o Exército reconheceu, em documento oficial, que essa lacuna compromete diretamente a segurança nacional.
O que o Brasil vai receber
O pacote descrito na diretriz é robusto e vai equipar inicialmente o 12º Grupo de Artilharia Antiaérea (GAAAe), em Jundiaí (SP). O sistema inclui:
- 1 Grupo de AAAe completo, com 1 Bateria de Comando e 2 Baterias de Mísseis
- 6 lançadores de mísseis CAMM-ER, o mesmo míssil que vai equipar as fragatas Classe Tamandaré da Marinha
- Radares Kronus Land, fabricados pela Leonardo, um por bateria
- 48 mísseis operacionais e mais 12 mísseis inertes para treinamento
- Sistemas de Comando e Controle integrados ao Link-BR2
- Simuladores, oficinas móveis, viaturas de transporte e toda a estrutura logística de manutenção nos níveis 1, 2 e 3
Essa padronização do CAMM-ER entre Exército e Marinha é um ponto que merece destaque. Usar o mesmo míssil nas fragatas Tamandaré e nos lançadores terrestres simplifica a cadeia de suprimentos, reduz custos de manutenção e gera interoperabilidade real entre as Forças. Não é detalhe técnico menor.
Acordo com a Itália e a lógica industrial
A escolha da Itália como parceira no G2G não é aleatória. Brasil e Itália têm um histórico sólido em cooperação de defesa, com projetos como o caça AMX, os blindados Guarani e Centauro II e os veículos 4×4 Guaicurus produzidos no Brasil. As viaturas do EMADS são fabricadas pela Iveco/Leonardo, o que abre caminho para nacionalização de componentes e manutenção facilitada.
Segundo a diretriz, o modelo italiano oferece agilidade contratual, supervisão estatal forte e boas condições comerciais, algo parecido com o sistema FMS americano, mas com um parceiro europeu.

Duas fases e os próximos passos
A aquisição vai acontecer em duas etapas. Na primeira fase, o sistema chega “de prateleira”, sem integração com radares nacionais. Os testes de recebimento serão feitos no Brasil pelo COLOG. Já na segunda fase, entra a integração com radares brasileiros em desenvolvimento, como o M200 Vigilante, o que fortalece a soberania tecnológica e reduz a dependência de fornecedores externos.
O Exército já autorizou o início imediato das negociações. O COLOG vai conduzir a contratação, o Estado-Maior acompanha diretamente e a capacitação de operadores e mantenedores inclui treinamento no exterior.
Um reposicionamento que vai além do míssil
O EMADS não resolve todos os problemas de defesa aérea de um país continental como o Brasil. Mas representa o primeiro movimento concreto para sair de uma situação de vulnerabilidade que durava décadas. Com teto de engajamento próximo de 20 km, alcançando parte da faixa de grande altura, o sistema coloca o Exército em outro patamar.
O Brasil operava sem qualquer capacidade antiaérea de média altura, capacidade que hoje só nações com forças armadas de alto nível tecnológico possuem. R$ 0 investidos nessa faixa por décadas, enquanto vizinhos compravam sistemas russos de longo alcance. O EMADS muda esse jogo. Não resolve tudo, mas é o começo de uma correção estratégica que já deveria ter acontecido há muito tempo.











