Fase piloto começa com carcaça de caixa de engrenagens do BvS10 em Resende e abre caminho para mais tecnologia de defesa feita no Brasil
Logo em um programa piloto, a BAE Systems Hägglunds se uniu à Knightec Group Brazil em Resende, no Sul Fluminense, para desenvolver carcaças de caixas de engrenagens do blindado anfíbio BvS10, com promessa de transferência de tecnologia e geração de empregos em engenharia no país.

O que está em jogo nessa parceria em Resende
No papel, o programa é piloto, mas o recado é claro. A Knightec Group Brazil, que herdou a estrutura da antiga Semcon Brasil e atua há anos como fornecedora de engenharia para a indústria automotiva, vai criar novos conceitos de projeto para a carcaça da caixa de engrenagens do BvS10, atacando custo de produção e desempenho do conjunto.
Depois da fusão entre Knightec e Semcon em 2024, o novo grupo passou a somar cerca de 2,4 mil funcionários e faturamento por volta de 2,7 bilhões de coroas suecas, com escritórios em Suécia, Noruega e Brasil, reforçando o peso da operação brasileira dentro de um player de engenharia global.
Para resumir, o piloto em Resende entrega três ganhos imediatos para a BAE Systems
- acesso a engenharia especializada em powertrain e manufatura vinda do setor automotivo brasileiro
- encurtamento da cadeia de suprimentos em um momento de forte demanda por BvS10 no mundo
- base local já pronta caso surjam programas de blindados para Forças Armadas brasileiras
Só que, por enquanto, o projeto ainda não fala em montagem de veículo completo no Brasil, e isso limita o impacto industrial de curto prazo.
Por que Resende virou endereço de blindado
Em Resende já existe um ecossistema automotivo robusto, que abriga a fábrica de caminhões e ônibus da Volkswagen Caminhões e Ônibus, hoje parte do grupo Traton, e serve como base de produção e desenvolvimento de veículos comerciais para vários mercados.
Na mesma cidade, a Nissan mantém um complexo que completou dez anos em 2024, usado como hub de exportação de modelos como Versa e Kicks para a América Latina, o que ajudou a consolidar o Sul Fluminense como segundo maior cluster automotivo do país em 2025.
Na prática, a BAE Systems está se plugando em um polo que já vive de logística, fornecedores e mão de obra treinada em processos de alto volume, o que facilita ganhar escala se o desenho de componentes do BvS10 evoluir para produção seriada no Brasil.
Mas ainda falta o passo mais ambicioso, que seria trazer para Resende linhas de usinagem e montagem dedicadas a blindados, elevando o nível de conteúdo local além da engenharia.
BvS10 e o efeito na vitrine da BAE para o Brasil
O BvS10 é um veículo blindado articulado, anfíbio, pensado para operar em gelo, lama, neve, areia e terrenos alagados, produzido pela BAE Systems Hägglunds na Suécia e já usado por forças de países como Suécia, Áustria, França, Países Baixos, Reino Unido e Estados Unidos.
Dados recentes apontam mais de mil unidades do BvS10 encomendadas no mundo, com pelo menos metade já entregue, número que tende a subir com o programa colaborativo CATV entre Suécia, Alemanha e Reino Unido, que prevê 663 veículos até 2028.
Curiosamente, mesmo com esse foco em operações árticas e montanhosas, parte da inteligência de projeto da caixa de engrenagens vai sair de escritórios na beira da Via Dutra, entre Rio e São Paulo, o que coloca engenheiros brasileiros em uma vitrine global de defesa.
Para o Brasil, há um encaixe natural com o discurso recente da própria BAE Systems, que vem oferecendo o carro de combate CV90 ao Exército e reforçando que consegue fazer transferência de tecnologia, montagem local e cadeia de suprimentos nacional conforme o interesse do país.
A empresa já tem histórico com as Forças Armadas brasileiras, fornecendo e modernizando M109A5+, M113 e o canhão leve L118 para o Exército, além de construir os navios patrulha classe Amazonas e ser responsável pelo antigo HMS Ocean, hoje NAM Atlântico da Marinha do Brasil.
Agora, com a Knightec Group Brazil envolvida de forma mais profunda em um programa real da família BvS10, a BAE ganha um cartão de visitas industrial dentro do país que pode pesar em futuros programas de blindados rastreados para Exército e Fuzileiros Navais, mesmo que isso ainda dependa de decisões políticas e orçamentárias que fogem totalmente desse acordo em Resende.











