LMS-192 Osvey: Rússia e Belarus apostam alto em turboélice regional próprio

Leonardo A Santos
Publicado em: 2 de abril de 2026
Siga-nos
LMS-192 Osvey: Rússia e Belarus apostam alto em turboélice regional próprio

Imagina operar rotas aéreas em regiões remotas da Sibéria e, de uma hora para outra, perder acesso a praticamente todos os aviões que faziam esse serviço. Foi exatamente isso que aconteceu com a aviação regional russa depois das sanções ocidentais. O LMS-192 Osvey nasceu diretamente desse vácuo.

O projeto é uma parceria entre a Rússia e Belarus, formalizada em acordo assinado em abril de 2024. De um lado, a fabricante russa UZGA (Planta de Aviação Civil do Ural), sediada em Ecaterimburgo, lidera o desenvolvimento. Do outro, a 558ª Fábrica de Reparos Aeronáuticos de Baranovichi, em Belarus, assume a produção de fuselagens e monta a base industrial para a fabricação em série.

LMS-192 Osvey: Rússia e Belarus apostam alto em turboélice regional próprio

LMS-192 Osvey

É um turboélice bimotor de asa alta, com capacidade para 19 passageiros. O design prevê trem de pouso fixo, não retrátil — uma escolha que pode parecer datada, mas tem lógica concreta por trás.

Por que o trem de pouso não retrátil

O engenheiro-chefe da 558ª Fábrica, Andrei Tuchin, explicou publicamente a razão: em aeródromos sem pavimentação, especialmente durante o degelo siberiano, lama e detritos podem bloquear o mecanismo de recolhimento do trem. Resultado? Um pouso com trem travado e potencialmente catastrófico. A simplicidade, nesse contexto, é segurança.

A aeronave será equipada com dois motores VK-800S, desenvolvidos pela própria UZGA. Três variantes do motor estão previstas, com potência entre 807 e 877 hp. O LMS-192 é projetado para operar em pistas curtas e com infraestrutura mínima, exatamente as condições das rotas que o programa precisa salvar.

Por que a Rússia precisou criar o Osvey

Antes das sanções, o principal avião usado nessas rotas era o Let L-410 Turbolet, fabricado na República Tcheca, portanto, território ocidental. Com o corte de acesso após fevereiro de 2022, Moscou ficou sem alternativa imediata para dezenas de rotas de baixa densidade em áreas remotas.

O Osvey entra como resposta direta. Mas não como improvisos, o projeto tenta aproveitar décadas de know-how soviético em operações regionais, um legado técnico que tanto russos quanto bielorrussos reivindicam como diferencial.

A lógica da parceria com Belarus

A divisão de tarefas é precisa no acordo. Belarus se compromete a encomendar pelo menos 178 fuselagens até 2038 e ao menos 89 aeronaves até 2030. A Rússia garante os pedidos na fábrica de Baranovichi e lidera o desenvolvimento técnico. Para Minsk, é uma oportunidade de se posicionar como polo industrial aeronáutico, algo que vai além do projeto atual.

Em dezembro de 2025, Belarus anunciou formalmente a criação da base de produção dedicada ao Osvey. Até ali, o programa existia sobretudo no papel.

Onde o projeto realmente está e o que ainda falta

O cronograma oficial fala em protótipo concluído em 2026, primeiro voo entre 2026 e 2027, e início da produção em série a partir de 2027 com 20 aeronaves entregues naquele ano e ritmo crescendo para 46 unidades anuais a partir de 2028. A meta total é de 158 aviões até o final de 2030.

Parece organizado, mas há um detalhe: o motor VK-800S ainda não tem certificação.

O problema do motor

O VK-800S é um motor em desenvolvimento. Testes em laboratório voador, usando um Yak-40 modificado estavam planejados com o objetivo de obter a certificação até o final de 2025. O LMS-901 Baikal, aeronave menor da mesma família, completou seu primeiro voo com o VK-800 em dezembro de 2025, o que é um sinal positivo. Mas certificar um motor para uso comercial é um processo longo, repleto de variáveis.

Sem motor certificado, não há protótipo. Sem protótipo, o cronograma de testes fica comprimido. E a história recente da indústria aeronáutica russa com o MC-21 e o Superjet SJ-100 acumulando atrasos significativos, não permite otimismo irrestrito com prazos.

O Osvey dentro do plano maior da aviação russa

O LMS-192 faz parte de um movimento mais amplo. Moscou está tentando reconstruir toda a cadeia de aviação civil após o isolamento tecnológico imposto pelas sanções. Ao lado do Osvey, outros programas seguem em paralelo.

O LMS-901 Baikal (monomotor, até 9 passageiros) está em fase mais adiantada e já realizou voos com o VK-800. O TVRS-44 Ladoga mira o segmento de até 44 passageiros. E nas categorias maiores, o Irkut MC-21 e o Superjet SJ-100 (na versão nacionalizada) ainda buscam consolidar suas certificações.

O Osvey preenche uma lacuna específica que nenhum desses projetos cobre: o segmento de 19 passageiros em rotas de baixíssima densidade. Pequeno em escala, mas estrategicamente insubstituível para garantir conectividade nas regiões mais isoladas.

Leonardo A Santos

Leonardo A Santos

Apaixonado por aviação e compartilho notícias e curiosidades sobre defesa, estratégia militar e tecnologia aeronáutica.