O Peru fechou um dos maiores contratos militares da América Latina nas últimas décadas. Em 20 de abril de 2026, a Força Aérea Peruana assinou o acordo para a aquisição de 24 caças F-16 Block 70 da Lockheed Martin, num pacote total de US$ 3,42 bilhões.

Por que o F-16 Block 70 e não o Gripen ou o Rafale
O processo de seleção foi longo, turbulento e virou assunto de política interna mais de uma vez. Em outubro de 2024, o Peru abriu licitação competitiva para modernizar a sua frota de combate, avaliando três concorrentes: o Rafale francês, o Gripen sueco da Saab e o F-16 Block 70 americano.
Em julho de 2025, ainda sob o governo de Dina Boluarte, o Peru anunciou o Gripen como vencedor, citando custo unitário menor e prazo de entrega mais curto. Só que esse resultado nunca foi formalizado. Com o impeachment de Boluarte em outubro de 2025, o processo voltou à estaca zero e um novo comitê técnico reverteu a decisão em fevereiro de 2026, priorizando critérios técnicos e geopolíticos. O F-16 Block 70 voltou ao topo.
A Saab não gostou. No dia 23 de abril, durante a teleconferência de resultados do primeiro trimestre da empresa, o CEO Micael Johansson declarou que a companhia ainda acredita que tinha feito uma oferta melhor e mais econômica, mas respeitou a decisão peruana.
O que diferencia o Block 70 dos F-16 anteriores
Não é exagero dizer que é uma geração diferente dentro do mesmo nome. O F-16 Block 70 carrega o radar AESA APG-83, que permite rastrear múltiplos alvos simultaneamente, fazer mapeamento de radar de abertura sintética e detectar ameaças a distâncias maiores do que qualquer versão anterior do avião. A arquitetura de aviônica é a mesma base usada em caças de quinta geração, o que dá aos pilotos acesso a fusão de dados e consciência situacional bem acima do que qualquer Block mais antigo consegue entregar.
No caso específico do contrato peruano, os EUA incluíram dois sistemas de armas que nunca tinham sido integrados num F-16 antes. Os detalhes desses sistemas não foram divulgados publicamente, mas o armamento confirmado inclui os mísseis ar-ar AIM-120C-8 AMRAAM e AIM-9X Block II, além dos mísseis ar-solo AGM-65 Maverick e bombas guiadas da série JDAM. O motor é o F110-GE-129, com empuxo na classe das 29.000 libras-força. Produção toda feita nas instalações da Lockheed Martin em Greenville, na Carolina do Sul.
O Peru vai receber as versões C e D do Block 70, ou seja, monoplazas e biplazas dentro da mesma frota, o que facilita o treinamento operacional sem precisar de outro tipo de aeronave para esse fim.

Bônus geopolítico do negócio
Em janeiro de 2026, o governo Trump designou o Peru como Major Non-NATO Ally, um status que amplia o acesso a equipamentos militares americanos, programas de treinamento e acordos de cooperação de defesa que não estão disponíveis para parceiros comuns. Essa designação foi parte do pacote que tornou a proposta americana mais atrativa do ponto de vista estratégico e não só técnico.
Com a aquisição confirmada, o Peru passa a integrar o grupo de 29 países operadores do F-16 em todo o mundo, dentro de uma frota global de mais de 2.800 aeronaves em serviço. E vai ser o único país da América Latina a operar o Block 70 de fabricação nova. Chile e Venezuela têm F-16 em versões mais antigas, e a Argentina está recebendo F-16AM/BM usados, adquiridos da Dinamarca, categoria completamente diferente.
O que o Peru está substituindo
A situação da frota atual da Força Aérea Peruana deixou de ser um problema futuro faz tempo. Os Mirage 2000 foram incorporados nos anos 1980. Os MiG-29 e os Sukhoi-25 chegaram no fim dos anos 1990. Segundo fontes militares citadas pela imprensa peruana, apenas um número reduzido dessas aeronaves ainda está em condições operacionais de voo. Boa parte da frota está em reserva ou inoperante.
Trocar essa frota por F-16 Block 70 não é só uma questão de modernização. É uma mudança de alinhamento estratégico. Sair de aeronaves russas e francesas para o caça mais avançado da Lockheed Martin em produção atual é um salto geracional, e provavelmente o maior que a aviação militar peruana vai dar nas próximas décadas.
O pacote inclui ainda programa completo de treinamento para pilotos, mecânicos e engenheiros, com foco em manutenção local de longo prazo. A promessa dos EUA é que o Peru terá controle total e autonomia operacional sobre a sua frota.
Os primeiros 12 F-16 Block 70 chegam em 2029. Os demais completam a entrega conforme o cronograma do contrato, que prevê um total de 24 aeronaves. A pergunta que fica é se o próximo governo, a ser eleito no segundo turno de junho, vai honrar ou tentar reverter os compromissos já assumidos e pagos.











