E se o GPS em vez de guiar seu drone até o alvo, o mandasse direto para uma emboscada? Não é ficção científica, é o que o spoofing de GNSS faz e é exatamente o problema que o drone Kalashnikov SKAT-350M foi atualizado para resolver.
A Kalashnikov anunciou que integrou um sistema de navegação óptica no SKAT-350M, seu principal drone de reconhecimento. A novidade não é apenas técnica, é uma mudança de filosofia para tirar o UAV da dependência de qualquer sinal externo e deixá-lo voar pelo que ele mesmo enxerga.

O problema que nenhum patch de software resolve
O spoofing de GNSS funciona assim: um transmissor terrestre emite sinais falsos de GPS ou GLONASS, e o receptor do drone passa a calcular uma posição incorreta. O aparelho continua voando, só que para o lugar errado. Sem alarme, sem erro visível no sistema.
O que torna isso perigoso não é a sofisticação, é o preço. Segundo a própria Kalashnikov, as ferramentas de spoofing de GPS proliferaram tanto que as barreiras de acesso hoje são baixas. Qualquer força irregular com poucos recursos consegue montar um sistema de interferência funcional.
O jamming você vê. O spoofing, não.
O Jamming bloqueia o sinal, o drone percebe que perdeu o GPS e aciona protocolos de emergência. Spoofing é mais insidioso: o drone acha que está funcionando normalmente. Ele só descobre o engano quando já foi desviado. É a diferença entre um assalto às claras e um golpe de confiança.
Como o SKAT-350M funciona sem satélite
A resposta da Kalashnikov é alinhada na sua lógica, se o sinal externo pode ser manipulado, abandone o sinal externo. O SKAT-350M passou a usar correlação de imagens em tempo real. O sistema compara continuamente o que a câmera vê com mapas digitais carregados antes do voo, e gera uma solução de navegação própria, sem depender de nenhum satélite.
Na prática, o drone sabe onde está pelo que reconhece no terreno abaixo dele. Pensa na diferença entre seguir um GPS numa estrada desconhecida e guiar um carro numa rota que você já fez centenas de vezes, você nem precisa do mapa.
O que acontece quando o sinal de satélite cai ou é falsificado
Quando o SKAT-350M detecta perda ou manipulação do sinal GNSS, o sistema não trava e não aborta a missão. Ele passa automaticamente para o modo autônomo de navegação óptica, corrigindo a trajetória pelos dados visuais, a missão continua.
Os testes foram feitos em condições de guerra eletrônica de alta intensidade, com interferência contínua e tentativas repetidas de spoofing. As métricas de precisão não foram divulgadas publicamente, algo comum nesse tipo de anúncio, mas a capacidade de manter a rota planejada indica que a correlação entre sensores e banco de mapas funcionou de forma eficaz.
O SKAT-350M no campo de batalha
O SKAT-350M não é um drone de ataque. É uma plataforma ISR de inteligência, vigilância e reconhecimento com autonomia de até quatro horas de voo. Carrega sensores eletro-ópticos e algoritmos de rastreamento automático que reduzem o trabalho do operador durante a identificação de alvos.
Segundo a Agência TASS, o drone passou por mais de 40 modificações ao longo de 2025, incorporando lições diretas do campo de batalha na Ucrânia. É, na prática, um sistema em evolução constante.
O ciclo reconhecimento-ataque
O SKAT-350M opera em conjunto com as munições loitering da família KUB, especificamente o KUB-2E e o KUB-10ME. O ciclo é o seguinte: o drone de reconhecimento localiza o alvo, fornece as coordenadas e apoia a avaliação dos danos após o ataque. Esse fluxo exige precisão de navegação em todas as etapas. Sem geolocalização confiável, as coordenadas enviadas ao KUB são inúteis.
O KUB-2E tem alcance operacional superior a 40 km e velocidade máxima de 150 km/h. Já o KUB-10ME, apresentado em fevereiro de 2026, estende esse alcance para mais de 100 km, o primeiro sistema russo da categoria a atingir essa marca.
Por que isso importa além da Rússia
A Rússia não está sozinha nessa corrida. A lógica por trás da navegação sem satélite, usar correlação de terreno, navegação inercial ou fusão de sensores para substituir o GNSS, é perseguida por fabricantes dos EUA, Israel e China.
O ponto aqui é, o spoofing transformou o GPS de vantagem tática em vulnerabilidade potencial. Qualquer força que dependa exclusivamente de satélites para navegar seus UAVs está exposta. O SKAT-350M é um sinal de que a era do drone totalmente dependente de GNSS está chegando ao fim, não por escolha, mas por necessidade de sobrevivência no campo de batalha moderno.











